Reflexões sobre a paralização dos professores em São Paulo e o Dia do Índio no Brasil e nas Américas

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Reflexões sobre a paralização dos professores em São Paulo e o Dia do Índio no Brasil e nas Américas

ANGLICA_PASTORI_IIpor Angélica Pastori - geografa e históriadora.

Pensei em escrever o que sempre me ocorre com relação a esses temas. Algo como “nosso país não tem uma história própria que enalteça sua verdadeira memória nem seu verdadeiro povo original” ou então “nosso país tem por nome Brasil e este pode vir até da cultura celta segundo alguns pesquisadores, mas fala a língua portuguesa, teve sua independência proclamada por um príncipe português, tem seus livros de história na maioria iniciados com a formação de Portugal e está acostumado a ver tudo através de véus europeus e ter suas riquezas descobertas, estudadas e/ou exploradas por estrangeiros...”.

Mas isso eu falo todos os dias, como professora, como geógrafa, como mulher e brasileira à quase vinte anos!

Então como trazer alguma inovação a esta discussão? Mal o texto começou e eu me vi em um grande dilema! Um país sem base histórica própria e legítima não tem por prática tradicional valorizar sua própria cultura e sua própria origem! Muito pelo contrário seus valores culturais seguem uma cartela de valores estrangeiros desde as batalhas medievais europeias encenadas nos parques públicos aos domingos até as grandes exposições de renomados artistas plásticos estrangeiros, lotadas nos museus das capitais brasileiras. Com estes valores é difícil ir para os confins do país e tentar dizer para aquela gente abandonada que o saber deles tem valor! As reações são adversas! Os olhos de alguns deles ardem de vergonha e descrença. Acreditem! Em minhas experiências em vários interiores deste país que não se conhece tive que me calar muitas e dolorosas vezes, pois senti que a rejeição era absoluta e que chegava ao limite agressão! Por outro lado uma feira de artesanato indígena aqui na capital tem lá suas vendas, mas não há espaços para uma valorização mais profunda, uma “contação” de histórias, um debate. Quando muito colocam uma tv passando algum documentário lá no canto da “feirinha” e anunciam uma, duas apresentações de grupos de dança na abertura e no encerramento do evento “Semana do Índio”.

Um quadro superficial e cíclico que desvaloriza e muito este importante componente da história brasileira e vital componente da sociedade brasileira. Lendo vários textos apaixonados de muitos brasileiros que não abandonaram este povo e sua beleza, vejo então o anúncio da paralização dos professores em São Paulo iniciada por passeata na Avenida Paulista em plena hora do rush da sexta feira dia do índio!

Impossível não sentir a mente a se transformar em um estilingue e arremessar a ideia pelo cérebro ricocheteando em todas as paredes!

“São eles! São eles! Todos os esquecidos! Todos juntos! Os esquecidos e rebaixados a quase nada de ontem e os de hoje! Ao mesmo tempo e agora!”

Que coincidência incrível e infeliz! Dois personagens de ontem, hoje e sempre em nossa história! Pedra e construtor de nossa cultura! Ambos pedindo atenção, pedindo respeito, apontando seu abandono, apontando as políticas que vão condená-los a extinção e lutando por fazer ver que não vão permitir ser esquecidos.

Como mulher, brasileira, filha de índio com italiana, historiadora e geógrafa sinto duas dores, duas apunhaladas no peito e com os olhos bem abertos fitando o assassino! O assassino é o sistema que nos quer sem memória e sem condições de aprender a desenvolver uma!

Ao que parece o sistema econômico e político vigente e seus fiéis seguidores escravos do dinheiro tem planos claros e diretos sem o mínimo escrúpulo em agir. Vão derrubar a casa do índio no Rio de Janeiro, vão alagar terras indígenas com a usina Belo Monte e com a monstruosa Tapajós que poucos sabem que é sete vezes maior que a primeira, vão ignorar a paralização dos professores como se ela nem estivesse acontecendo porque são frios, fortalecidos em suas ilusões de controle e de poder. Este cenário é igual em todo o país para qualquer elemento da sociedade, índio, professor, trabalhador seja lá quem for!

professores_em_greve_II

Em um país em que professor tem que ir pra rua na hora de maior trânsito e na maior das capitais para pedir que não sucateiem ainda mais a educação eliminando disciplinas da grade escolar e arroxando salários, como lutar pela mínima dignidade dos que estão na capital ou a milhares de quilômetros de qualquer capital?

A indignação é geral e absoluta por toda a parte, desde o ônibus pegando fogo nas demonstrações de força das organizações criminosas periféricas urbanas até os confrontos violentos nas questões de terras indígenas.

Infelizmente datas como dia do índio, dia do professor e dia da terra são datas para lembrar-nos que cada um deles está em situação crítica e não para homenagear.

Homenagear o que?

O desencantamento me coloca prostrada diante da tela do computador!

Toda a energia que me moveu a escrever este texto se foi!

Como terminar de forma positiva e esperançosa?

Não há como terminar!

Esses combates estão longe de terminar! Só nos resta fé, força e persistência para continuarmos lutando, lutando sem parar!

Angélica Pastori

Geógrafa e Historiadora

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