Um evento cultural indígena

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UM ENVENTO CUTUAL INDÍGENA

por: Alan Mortean

O estado de Oaxaca (se diz “guajaca”), no México, é um estado com uma grande diversidade cultural, oriunda dos vários povoados, ou pueblos, indígenas que habitam suas serras. No meu voluntariado aqui no estado, tenho o prazer de conviver com uma descendente do povo indígena Mixe (se diz “mírre”), que conta com aproximadamente 100 mil pessoas.

Os Mixes habitam a região norte e noroeste do estado. E não é porque são indígenas que todos moram em ocas e usam poucas roupas, como está no imaginário brasileiro. A “modernidade” e o “desenvolvimento” já chegaram a esses povoados há algumas centenas de anos, ainda quando eram colônia espanhola. Hoje, lutam para manter sua rica cultura, formada por seu idioma Mixe, sua música, sua dança, sua comida e suas tradições.

Nesse contexto de manter sua cultura, organizam um encontro chamado Semana de Vida e Língua Mixes (SEVILEM), onde todos os habitantes dos pueblos Mixe são convidados a participar. Já houve tempos em que ocorriam 3 SEVILEMs por ano; hoje, por questões econômicas, se organiza uma edição anual.

A visão que eu tive dos Mixes é a de que são um povo organizado e que luta para manter sua cultura, o que se materializa no esforço de organização da SEVILEM, um evento que junta de 200 a 300 pessoas todos os anos, entre eles lingüistas, antropólogos e outros estudiosos da área de humanas, mixes e não mixes, além de profissionais de outras áreas. Entre os mixes há muitos graduados em cursos superiores.

No evento houve espaços de discussão sobre a língua e cultura Mixes, oficinas de temas diversos: desde dança e arte até princípio dos 3Rs (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), além da exibição de um documentário Mixe. Um dos pontos altos do evento foi a “Noite de Fogata”, onde os velhos contavam histórias e lendas para todos que quisessem ouvir, em Mixe, à luz de algumas tochas queimando. Claro, não entendia o que esses experientes Mixes diziam, mas me contentava por poder estar ali presente.

mixe

Na última noite, a festa foi garantida por uma das dezenas de bandas formada exclusivamente por Mixes, e também pela animação de todos: mixes, mexicanos, americanos e brasileiros (ressaltando que a população brasileira e americana do evento era formada por um representante de cada país). Essa banda não é uma banda de rock, ou outra do tipo, mas é parecida com uma orquestra, com instrumentos de sopro e percussão, como clarinetes, oboés, saxofones, contrabaixos, tubas, pratos, etc. Há um pueblo Mixe, conhecido como Tlaui, onde há mais de dez bandas dessa, o que pode nos ajudar a riqueza cultural desse povo.

A banda estava tocando na quadra municipal, coberta por uma lona de circo, centro do pueblo de Santa Maria Matamoros, quando uma forte chuva se iniciou. Sem problemas, a banda continuou. De repente, uma parte da lona caiu. Foi um susto, mas a banda não parou de tocar. Aí a chuva apertou de tal maneira que todos saíram da quadra e foram se abrigar na prefeitura municipal; aí sim, a banda se viu obrigada a parar. Porém, parou por pouco tempo. Foi tocar na sacada da prefeitura municipal. Foi quase um êxtase quando eles começaram a tocar na sacada: todos foram atrás, a sacada da prefeitura virou uma pista de baile.

Depois de uns 30 minutos, com chuva indo e voltando, acabou-se a eletricidade, e quem disse que a banda parou? Continuou tocando, mantendo a mesma animação. Foi uma noite de muita alegria, acima de tudo. Percebi que os Mixes, como qualquer outro povo, gosta de uma boa música e de se divertir.

Durante a XXIX SEVILEM, tive a felicidade de participar de um curso de introdução à língua Mixe, onde aprendi que há mais de 100 mil falantes de Mixe, que conta com variações de pueblo a pueblo, como o número de vogais, que varia de 6 a 9, dependendo do lugar. Longe de parecer uma imperfeição da língua, aprendi que isso é resultado de uma evolução natural do idioma, e que a padronização é um fenômeno recente em nossa história, que faz com que, de certa forma, a língua pare de evoluir, como é o caso do português, inglês e espanhol, por exemplo. Nesse curso também aprendi a contar de um a dez em Mixe, veja se você acompanha:

1 – tu úc

2 – matsk

3 – tugúrr

4 – mactásh

5 – magósh

6 – tudúrr

7 – rushturk

8 – tuc turc

9 – tash turc

10 - márrc

O México é um país que tem uma cultura vasta e muito diversa, com várias tradições, algo que eu não percebia no Brasil, talvez por morar no estado de São Paulo, que é tão “desenvolvido”, e possui uma cultura muito mais homogênea e urbanizada. Quantas vidas e quanta cultura se perderam, no Brasil, pela colonização, pelos bandeirantes? Quanto perderíamos mais, se não tivessem existido os grandes indigenistas Marechal Rondon e os irmãos Villas-Bôas?

Acredito que o reconhecimento da diversidade, a preservação e a valorização das culturas é algo importante, pois nelas estão inseridos conhecimentos milenares relacionados a métodos de plantio, criação de animais, artesanato, métodos tradicionais de construção, tudo já testado e comprovado por, no mínimo, centenas de anos. Na atualidade, na era de padronização e produção em massa, inclusive cultural, geramos mais problemas do que soluções. Talvez a saída esteja em uma vida mais simples; nesse sentido, fica a reflexão final:

"Se você buscar somente o essencial, a mãe natureza dará para você"

Balu - The Jungle Book

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