O que aprendi na universidade

O que aprendi na universidade

Alan_MorteanAllan Mortean - Expedicionário da Fundção Villas-Bôas - Voluntário no México - Viajando para Cuba

Quando me perguntam o que estudei, qual a minha formação, respondo que terminei o curso de engenharia ambiental há pouco tempo. Talvez eu tenha que mudar essa resposta, pois já faz quase um ano que terminei a faculdade.

De tanto responder essa mesma pergunta, já criei uma resposta padrão, o que é mais cômodo, mas talvez não seja o melhor a fazer, pois ao fazer as coisas sempre da mesma forma, perdemos oportunidades de ver as coisas de novos pontos de vista e de adquirir novas experiências. Filosófico, não?

A resposta que dou é: sou engenheiro ambiental. Logo vem a pergunta seguinte: “e o que faz um engenheiro ambiental?”. Respondo que pode fazer muitas coisas, mas o foco do meu curso foi saneamento - e complemento - saneamento convencional, com projetos de grandes estações de tratamento de água e de esgotos, mas que, agora, nesse meu voluntariado aqui no México aprendi muito sobre uma outra visão... saneamento ecológico.

De tanto questionado sobre o que faz um engenheiro ambiental comecei a pensar na pergunta que é o título desse artigo: “O que aprendi na universidade?”. Depois de refletir um pouco e depois de quase um ano de formado, tenho algumas idéias que compartilho aqui.

A universidade, através de aulas e matérias, me ensinou grande parte do que sei de legislação ambiental, qualidade de água, tratamento de água, tratamento de esgoto e resíduos sólidos. Mas digo que coisas tão, ou mais importantes que essas, eu aprendi fora das salas de aula, pois, afinal de contas, a universidade está cheia de oportunidades:

- para os mais aplicados nos estudos e nas pesquisas, há projetos e bolsas de iniciação científica;

- para os mais aplicados nas festas, há grupos que se dedicam a organizar-las e a beber, muito;

- para os que curtem uma competição, há equipes de várias modalidades esportivas para participar;

- para os que curtem estar na arquibancada animando as equipes, há a bateria, que acompanha as equipes nos campeonatos universitários;

- para os que querem conhecer ambientes de trabalho de empresas, há as empresas Junior;

- para quem quer promover eventos acadêmicos, há os comitês organizadores de semanas de cursos, com palestras, oficinas, visitas técnicas, festas;

- para quem quer atuar para melhorar seu curso de alguma forma, há as secretarias acadêmicas;

- para quem quer melhorar o campus, há o centro acadêmico;

- para quem quer melhorar a universidade, há o diretório central de estudantes;

- para quem quer aplicar o terceiro membro do tripé ensino-pesquisa-extensão, o menos aplicado dos três, há grupos e projetos de extensão como o projeto Rondon e o USP Recicla;

- para quem quer aprender inglês, há cursos iniciantes e intermediários grátis;

- para quem quer ter uma experiência internacional, há várias oportunidades de intercâmbio;

- pra quem quer organizar a festa de formatura e todos os seus detalhes, há a comissão de formatura;

- para quem não quer fazer nada disso que listei acima, tenho certeza que há outras coisas que me esqueci de citar aqui;

Os cinco anos de universidade para mim abriram minha cabeça para novas oportunidades, coisas que nunca pensei que ia fazer um dia, como participar de uma operação do Projeto Rondon (projeto do Ministério da Defesa que leva universitários por 15 dias em regiões pobres do Brasil para trabalho voluntário) no Pará, no meio da floresta amazônica, uma experiência que me marcou positivamente.

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atividade de plantio de árvores durante o Projeto Rondon, em Alenquer, Pará

Outro programa importantíssimo para mim foi o USP Recicla, do qual participei durante a segunda metade da minha graduação. Foi um tempo onde aprendi muito sobre nossa sociedade de consumo, desenvolvendo um pensamento mais crítico em relação à geração de lixo, conheci e trabalhei (e trabalho) com o princípio dos 3R (reduzir, reutilizar e reciclar), compostagem, coleta seletiva e tive a oportunidade de trabalhar pela primeira vez com oficinas para estudantes do ensino médio, o que foi importante como experiência prévia a uma parte do trabalho que realizo agora.

Além disso, essa experiência no programa me proporcionou ser coautor de um guia prático sobre organização de eventos mais sustentáveis, o que gerou um novo projeto e hoje há um estagiário trabalhando com esse tema no USP Recicla. O guia pode ser baixado gratuitamente em: http://www.projetosustentabilidade.sc.usp.br/index.php/Biblioteca/Documentos/Organizacao-de-eventos. Paralelo a isso, fiz o meu trabalho de graduação usando o mesmo tema, e participei da organização da Semana da Engenharia Ambiental, onde apliquei alguns conceitos do guia. Digo que minha graduação pode ser separada em antes e depois do USP Recicla, pois, de certa forma, tudo o que fiz na metade final do meu curso tinha alguma ligação com o programa.

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Figura 2: Capa do guia

Outro período essencial para mim na universidade, o que pode parecer um escândalo para muitos, foram os meses de greve no segundo ano de curso (2007). Foi uma greve movida pelos estudantes, funcionários e parte dos professores, contra um decreto do então governador de São Paulo, que tinha como medida principal submeter todas as decisões dos reitores das três universidades públicas de São Paulo para sua aprovação ou desaprovação final. Houve uma grande mobilização estudantil nos campi das três universidades, e no campus onde eu estudava não foi diferente. Participei ativamente da greve e aprendi muito sobre as relações de poder na universidade e na sociedade, perdi a inocência de pensar que a elite científica da sociedade é também a elite democrática, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Vi na prática a Rede Globo e a revista Veja distorcendo e mal informando as pessoas sobre as razões das mobilizações do movimento estudantil, vi a grande capacidade que temos, como indivíduos, de obter resultados positivos ao nos mobilizarmos por uma causa, pois o decreto foi revogado e tivemos outros ganhos, como um ônibus novo para o transporte entre os dois campi que existem na cidade, a construção de um novo alojamento para estudantes e, depois, conseguimos uma melhora na qualidade da alimentação servida no restaurante universitário.

Tive uma experiência participando da comissão de formatura também, muito rica no sentido de conviver com pessoas que tinham gostos, prioridades e disponibilidade de dinheiro muito diferentes das minhas (leia-se: muito maiores). Conviver com pessoas diferentes propicia boas oportunidades de aprendizagem.

Além de tudo isso, outra coisa importantíssima é a rede de amigos e contatos que pode ser criada na universidade. Os palestrantes, professores e companheiros de curso ou de universidade podem nos prover várias oportunidades, como a oportunidade que estou tendo de fazer esse voluntariado no México, contato obtido com um companheiro de curso chamado Felipe (ou Hare), algo que eu nem sonhava em fazer e nem sabia que existia antes desse período de cinco anos.

A universidade abriu para mim, vagarosamente, durante o período que lá estive, um grande leque de oportunidades, porém... há tanta coisa que a escola e a universidade não ensinam... há uns dias ouvi a seguinte reflexão de um arquiteto mexicano, referência desenhos para saneamento ecológico: “A universidade nos transmite conhecimento, mas não sabedoria. Sabedoria a gente encontra conversando com aquele senhor lavrador que olha pro céu e sabe se vai chover ou não, olha pro sol e sabe que horas são, que espreme um pouco de barro com as mãos e sabe se essa terra é boa ou não pra construir uma casa de adobe... isso a escola não ensina, a universidade me ensinou a ser um vendedor de cimento e malha de ferro”. Um agrônomo agregou em seguida: “minha universidade me formou um vendedor de agrotóxicos”. Eu me pergunto: minha universidade me formou o que? E a sua, te formou o que?

Antes que eu esqueça: estudei engenharia ambiental na universidade de São Paulo, campus de São Carlos e atualmente faço um trabalho voluntário na área de saneamento ecológico em três pequenas comunidades no México, pra ver se encontro a sabedoria.

Festa de San Miguel Suchixtepec

Festa de San Miguel Suchixtepec

Por Alan Frederico Mortean 

Entre os dias 27 a 30 de setembro de 2011 ocorreu a festa do pueblo de San Miguel Suchixtepec, onde vivo aqui no México durante meu voluntariado. É a maior festa que se dá durante o ano na comunidade.

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A primeira noite foi marcada por uma espécie de abertura que se chama “calenda”, que teve a presença de um grupo de danças tradicionais de uma cidade vizinha, uma boa banda local chamada “Los Compadritos”, “toritos”, que são armações de ferro na forma de touros ou de anjos, cheios de fogos de artifício coloridos e bombas que uma pessoa coloca sobre sua cabeça e dança sob o som da banda enquanto queimam os fogos de diferentes cores e se estouram as bombas, além de grandes bonecos que lembram os bonecos de Olinda brasileiros que dançam junto dos “toritos”.

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Aqui no México dizem “banda” aos grupos musicais formados por instrumentos como clarinete, tuba, pratos, saxofone, etc., onde normalmente não há um cantor, somente o som dos instrumentos, e dizem “grupo” às outras formações musicais, onde há um cantor, bateria e outros instrumentos, etc. e que tocam músicas mais populares (que tocam nas rádios), formações que no Brasil chamamos bandas.

Personagens essenciais para a festa do pueblo são os “mayordomos”, que são pessoas do pueblo que bancam os quatro dias de festa. Servir o pueblo é uma honra aqui e ser mayordomo é uma das formas que há para fazer isso. Cerca de oito são escolhidos todos os anos pelo governo municipal como pessoas que se destacam no pueblo e que não fizeram parte do governo ou de algum comitê nos últimos anos, que são outras formas de servir ao pueblo, já que são todos serviços não remunerados. Apesar de ser uma honra ser mayordomo, isso representa um grande gasto, a ponto de haver histórias pessoas que venderam terrenos, carros, fizeram empréstimos, tudo para financiar a festa, e depois foram trabalhar nos Estados Unidos para juntar dinheiro e pagar suas contas.

Continuando a ler essa matéria, você poderá ter uma idéia do quanto gastam os mayordomos, com base no que contém os quatro dias de festa.

A festa de San Miguel é uma festa com comida, bebida, mezcal, cerveja, tortillas, bandas de música de outros pueblos, dois bailes (quarta e sexta), torneios de futebol e de basquete, premiações e comida na casa de um dos mayordomos.

Os campeonatos de futebol e de basquete atraem equipes de toda a região, pela premiação dada aos primeiros colocados. No futebol são 7 mil pesos para a equipe vencedora, cerca de mil reais, e no basquete são 5 mil pesos. Participei do campeonato de futebol com uma equipe local, chamada “Los Dragones”, as condições do campo eram bem precárias, era terra com alguns tufos de grama, e uma área onde havia um pasto que chegava até o meu joelho; além disso, em nossas duas últimas partidas, estava chovendo e fazia muito frio. É uma boa recordação pra mim, hehehe, mais ainda porque ficamos na quarta posição e ganhamos um cabrito de prêmio. Depois de uma semana o cabrito virou comida na festa que fizemos da equipe. Eu não o comi, pois continuo sendo vegetariano, apesar de tudo, mas tive um sentimento de gratidão por ele ter nos proporcionado a festa do time. A seguir está uma foto de um jogo do torneio e uma foto da equipe e do cabrito, na noite de premiação.

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Na segunda noite de festa, houve o baile. A primeira vez que vi um baile aqui foi num pueblo vizinho chamado San Pedro El Alto, de onde se pode ver o mar (que está a aproximadamente cem quilômetros de distância) em dias em que o céu está límpido. Achei muito engraçada a dinâmica do baile, uma nova experiência. Enquanto o grupo toca, todos estão dançando, sempre aos pares, nunca se vê uma roda de amigos dançando. Quando se acaba a música todos saem da pista (no caso a quadra de basquete), as pessoas se espremem nas bordas da quadra e o meio fica livre, até que começa a próxima música quando os pares vão voltando ao centro da quadra até que ela se enche de casais dançando. E essa dinâmica de entra e sai continua a noite toda enquanto há música, geralmente das dez da noite até as três da manhã. A maneira de dançar também é diferente, em geral os movimentos são mais contidos do que no Brasil (isso não se aplica quando se fala da música e da dança do pueblo indígena mixe, dos quais eu já escrevi aqui uma vez, sob o título “Um evento cultural indígena”). Mas uma coisa eu posso afirmar: a música aqui é muito boa! E eu improviso uma mescla de passos brasileiros e mexicanos na pista.

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Uma das tardes, quando eu estava vendo a final do basquete, chamaram para ir comer na casa de um dos mayordomos. O convite foi feito a todos que estavam no pueblo, pelo sistema de som da prefeitura, que geralmente se usa pra convocar pessoas a reuniões, publicar oportunidades de emprego, divulgar presença de algum serviço do governo que estará um dia na cidade, mas, nessa ocasião foi utilizado para convocar aos cidadãos que desejassem ir comer na casa do mayordomo.

A comida estava muito boa, havia tortillas, um caldo de vários vegetais, café, tortillas e, claro, molho de pimenta. Aqui no México há muitos tipos de pimentas e muitas formas de consumi-las, como em molhos, em pasta, em pedaços, inteiras, até recheadas!

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Na terceira noite de festa houve apresentação de várias bandas de pueblos da região, noite que culminou com uma apresentação em conjunto de todas as bandas, tocando várias músicas. Estava muito bonito, a diversidade cultural do estado de Oaxaca é muito grande. No Brasil nunca tive a oportunidade de ver apresentações assim.

Pra terminar, na última noite, dia 30, teve mais um baile, desta vez com um público menor, pois os dois grupos que se apresentaram eram menos conhecidos. E para mim também não foi tão legal quanto o outro baile, pois minha chefa-companheira de baile não estava, e eu acabei não chamando nenhuma “chica” para “bailar”. Contudo, em resumo, a festa do pueblo foi muito boa, guardarei boas experiências e recordações!

CURSO FAUNÍSTICO COM TÉCNICA DE RASTREAMENTO.

PREZADOS EDITORES DE TODO O PAÍS.

Prezados interessados em participar da Expedição VILLAS-BÔAS. Faça o seu contato, divulgue.

A Fundação VILLAS-BÔAS, com seus expedicionários, quer passar pelas cidades ou Estados que tem assinatura BIOCAPI Consultoria Ambiental, encabeçada pela expedicionária e Bióloga Claudia Aparecida Pimenta.  Esta é uma oportunidade para os brasileiros poderem realizar o CURSO FAUNÍSTICO COM TÉCNICA DE RASTREAMENTO.

A primeira versão será ministrada nos dias 17, 18, 19 e 20/11/2011. (04 dias e 3 noites).

Local: Vale Silvestre Eco Park.

Vagas limitadas: 40 pessoas no máximo.

Telefone para contato:

Vale Silvestre Eco Park = (33) 3271-2728.

BIOCAP = (33) 3267-1118.

Fundação VILLAS-BÔAS = (91) 3235-5951.

Pelos e-mail:

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Ou via internet: www.expedicaovillasboas.com.br com cartão de crédito via pagseguro.

Publico Alvo: estudantes (ensino superior), guias com afinidade de trabalhar com animais silvestres e publico em geral, como empreendedores, pessoas da 3ª idade, pessoas especiais, em tratamento de depressão, ou quem mais se interessar, criando assim vínculo de harmonia entre eles e a natureza.

Material disponibilizado ao participante: CD com o digital do curso.

CERTIFICAÇÃO: O certificado será entregue no término do curso, além de um Certificado de Parceiro da Expedição VILLAS-BÔAS pelo Brasil.

PACOTE INCLUI:

Hospedagem em alojamentos compartilhados.

Alimentações: 08 refeições e lanches para Trilha.

Curso com a Bióloga Claudia Pimenta e sua equipe.

INVESTIMENTO POR PESSOA: R$ 400,00

PACOTE NÃO INCLUI: Bebidas, despesas pessoais, e refeições não citadas.

Obs.: Este preço é consolidado no Vale Silvestre Eco Park, base dos Cursos da BIOCAPI. Por ocasião de outros Estados e regiões solicitarem que os membros da Expedição VILLAS-BÔAS, com o Curso itinerante, desloquem-se com sua equipe, serão refeitos os cálculos para definir o preço para cada aluno.

EQUIPE TÉCNICA

  • Claudia Aparecida Pimenta

Bióloga – CRBio 57761/04-D, formação em Licenciatura Ciências Biológicas na Universidade Presidente Antonio Carlos - UNIPAC de Aimorés, Pós-graduada na Universidade Federal de Lavras - UFLA em “Avaliação de Fauna e Flora e no Manejo Ambiental” especialização em Avifauna e Mastofauna com o uso da técnica de rastreamento dos aborígenes Australianos nas metodologias existentes.

  • Marina Schutz de Cristo - Bióloga – CRBio 070321/04.
  • Marcio Laudes - Técnico Ambiental.

Quando houver parcerias com as prefeituras, empresários ou patrocinadores nas possíveis cidades onde o evento ocorrer, o presidente da Fundação VILLAS-BÔAS, Paulo Celso VILLAS-BÔAS, participará também do evento, dando palestras, promovendo a passagem dos integrantes da Expedição VILLAS-BÔAS pela equipe acima citada e arrecadando alimentos não perecíveis para uma entidade local.

O Rastreamento de pegadas é uma técnica incorporada às metodologias existentes para a coleta de dados em campo. Técnica que é só a porta de começo para uma nova relação com a natureza, na qual passamos a ser agentes de sua conservação. Essa técnica é muito ampla, vai além de Rastrear Pegadas deixadas por animais. Está relacionada à descoberta de trilhas da natureza deixadas por meio de um conhecimento ancestral, que leva à percepção sistemática da vida e ao despertar da consciência e do respeito a qualquer manifestação de vida. Dessa forma, é possível uma aproximação ao animal, com a finalidade de registro fotográfico e a vocalização. Além disso, incluem-se um conjunto sistematizado de técnicas de interação que conectam o homem com a natureza, desde o tracking tradicional às habilidades de convivência no mundo natural.

Todos os recursos arrecadados nesse projeto serão destinados às ações dos projetos ancoras da Fundação VILLAS-BÔAS, na cidade de Muaná – Ilha do Marajó.

Marajó apresenta gravíssimos problemas sociais, que vão desde a grande concentração fundiária ao menor Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Pará, além do crescente estado de risco, avanço da pirataria, drogas, pedofilia e prostituição infantil. A região apresenta alguns dos menores Índices Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Os outros indicadores também são alarmantes: 80% da população de adultos é considerado pelo TCE como analfabetos funcionais; o atendimento da saúde pública é inexistentes ou caótico na maior parte da região, diante de altas taxas de natalidade e significativos índices de gravidez na adolescência. Mais de 20% não possui documentos básicos e por isso não tem acesso a benefícios públicos como aposentadoria, bolsa família e outros.

UM POUCO SOBRE A FUNDAÇÃO E EXPEDIÇÃO VILLAS-BÔAS

A Expedição VILLAS-BÔAS na Amazônia

O projeto "Expedição Villas-Bôas pelo Brasil" nasceu em 2005, oriundo do antigo sonho do fundador em seguir a tradição dos "Villas-Bôas". Não se espelha em experiências anteriores visto que se trata de projeto mais abrangente, não se focando somente no sertanismo e indígenismo. Hoje, as necessidades do Brasil são o conjunto socioambiental. Esse projeto pretende levar ao povo brasileiro o desenvolvimento socioambiental em toda a sua estrutura, atendendo ao tripé básico: a economia, o homem e a natureza. Na falta de um desses elementos, todas as tentativas de sucesso tornam-se apenas "meros discursos".

Esse grande empreendimento visa identificar os problemas existentes e aperfeiçoar suas soluções. Na estrutura e execução contamos com profissionais de diversos segmentos, engajados e conscientes dessa realidade. Trata-se de projeto de levantamentos de dados e de execuções pontuais, visando levar às populações a transformação de hábitos socioambientais, respeitando as diferenças regionais e suas demandas.

A expedição é formada por diferentes equipes de profissionais, universitários e voluntários de todo o país, selecionados via editais. Está dividida em quatro etapas, contendo cada uma delas várias fases para que possamos percorrer todas as cidades do Brasil, começando pela Amazônia.

Estamos convencidos de que o "ambiental" deve estar em parceria com o "social". A educação, a cultura, a assistência sanitária, assistência médica e psicológica devem alicerçar a sustentabilidade. A exploração científica não deve ser isolada dos fenômenos sociais. A fauna e a flora devem ser valorizadas, respeitadas e estudadas fazendo parte do conjunto.

Aceitamos voluntários de todo o território nacional, veja o nosso vídeo.

http://www.youtube.com/watch?v=TEjiBJuH2_k&feature=related

Paulo Celso VILLAS-BÔAS, Presidente da FVB/EVB - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

MINHAS EXPERIÊNCIAS como VOLUNTÁRIO NO MÉXICO

San Miguel Suchixtepec

por Alan Mortean

Alan_Mortean

Vou falar um pouco do “pueblo” onde vivo aqui no México durante meu voluntariado, um pueblo onde todos que se encontram nas ruas se cumprimentam com “buenos días”, “buenas tardes” ou “buenas noches”, mesmo sem se conhecer, apesar de isso ser difícil quando se trata de uma comunidade de 5 mil habitantes. Aqui, os recados da prefeitura são dados diretamente pelos governantes por meio de um sistema de alto-falantes que chega a quase todo o povoado, pois a prefeitura se localiza numa das partes altas do pueblo. Às vezes esse sistema é utilizado pra tocar música, principalmente em datas festivas, às sete, às vezes seis da manhã, e desperta toda a comunidade.

Esse pueblo se chama San Miguel Suchixtepec, um nome que mostra a influência católica nas tradições locais, pois se fundiu a palavra Suchixtepec, de origem zapoteca, que significa “colina da superfície florida”, com San Miguel, que é o santo padroeiro do povoado. Suchixtepec vem de xochitl - “flor”, ixco - “superficie” e tepetl - “colina”. Perguntando a alguns habitantes daqui o porquê desse nome, me responderam que é porque os primeiros habitantes do pueblo, assim que chegaram viram as colinas totalmente cobertas por pequenas flores amarelas e laranjas.

San Miguel Suchixtepec é um povoado tranquilo, localizado numa zona onde se usa o espanhol e o zapoteco como idiomas, sendo este último uma língua indígena. Está numa área de serras, no sul do estado de Oaxaca, México, a dois mil e quinhentos metros de altitude, o que se traduz num clima frio, mesmo no verão, apesar de estar perto do litoral quente banhado pelas águas do Oceano Pacífico. Se quiser ir pra praia, em duas horas e quinze minutos, à cinqüenta quilômetros por hora (a estrada não permite uma velocidade maior), se chega ao litoral, na cidade de Pochutla. A estrada possui muitas curvas, a ponto de causar uma boa náusea em um desavisado que coma logo antes de viajar, experiência própria.

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Foto 1: localização do povoado de San Miguel Suchixtepec (SMS, marcador amarelo) no México, a sul da Cidade do México. Fonte: Google Earth

As principais atividades econômicas do povoado são o cultivo de milho, base da alimentação mexicana, de onde se produz as deliciosas e versáteis “tortillas”, a extração e beneficiamento de madeira, extração de areia e pedras para construção e o setor terciário composto por pequenos mercados e lojinhas onde se encontra o básico, além de duas lan-houses, com internet via satélite.

Por ser uma região montanhosa e alta, há dias, na época de chuvas, em que se pode ver as nuvens desde cima, o que garante belas vistas, com as nuvens abaixo e o céu azul acima. Aqui a época de chuva tem chuvas diárias e tempo nublado durante quase todo o dia, a ponto de dar uma grande alegria o dia em que se vê o sol ao se despertar! Capa de chuva, ou “impermeable” como dizem os mexicanos é um acessório diário indispensável.

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Foto 2: foto de San Miguel Suchixtepec, desde a casa SARAR, onde vivo. À esquerda se vê um banheiro seco

A vegetação é composta basicamente por pinos e cedros, e as frutas que se adaptam ao clima são a maçã e o pêssego. O maior recurso natural disponível é a madeira, largamente utilizada pelos carpinteiros existentes no povoado, que produzem desde artesanatos até móveis e casas com essa matéria-prima.

O catolicismo domina a religião aqui, o que não impede a existência de pequenos grupos de religiões protestantes. A construção que identifica San Miguel desde a estrada é sua igreja, que possui cores muito bonitas.

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Foto 3: igreja de San Miguel, numa missa de formatura de uma de suas escolas

Em relação à educação, há uma escola preescolar, uma primária, uma secundária e um instituto de bacharéis, que é equivalente ao ensino médio brasileiro, além de um albergue escolar, onde as crianças que vem de longe podem dormir e se alimentar durante toda a semana e voltar pra casa nos finais de semana. San Miguel, apesar de ser tão pequena para os padrões brasileiros, possui um distrito, que se chama Loma Morillo, onde há mais duas escolas: uma preescolar e uma primária.

Dentre as escolas citadas, o projeto onde faço meu voluntariado, SWASH+, “Água, Saneamento e Higiene em Escolas mais Impacto em Comunidade”, por suas siglas em inglês, atua em todas, com o objetivo de incrementar o acesso a água segura, melhorar comportamentos de higiene e aumentar o acesso a instalações adequadas de saneamento, por meio de diagnósticos, monitoramentos, educação, comunicação e capacitação em saneamento ecológico. O saneamento ecológico é mais barato que o saneamento convencional na sua implantação, além de ser muito mais sustentável, mas necessita um aporte grande com relação à capacitação dos usuários dos sistemas, o que leva, ao final, a uma equivalência nos gastos entre as duas formas de saneamento. Mas vamos voltar a falar sobre a vida no pueblo.

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Foto 4: vista de uma das ruas de San Miguel

Há abastecimento de água potável em quase todo o povoado, com água de qualidade, por sua localização numa área de cabeceira, ou seja, início de uma bacia hidrográfica, e esta água não recebe nenhum tratamento antes de ser enviada aos tubos e mangueiras negras espalhadas pelas ruas e caminhos de San Miguel. Apesar disso, há períodos em que se interrompe o abastecimento de água por diversas razões, como agora enquanto escrevo, estamos sem água já por 48 horas. Devido a isso, há um reservatório de água de 750L aqui em casa, para suprir nossas necessidades quando necessário. A pior parte da falta de água é não ter água na torneira, que é tão pratica, e ter que esquentar água no fogão pra tomar banho de bacia e caneca. Mas isso também faz parte da experiência!

A energia elétrica também é provida para todo o povoado, e quando há uma chuva muito forte, corre-se o risco de se ficar sem eletricidade por algumas horas ou até mais que um dia, dependendo da gravidade do problema, pois podem cair árvores sobre os cabos transmissores localizados na serra. A parte boa é que, mesmo sem eletricidade, não precisamos nos preocupar muito com os alimentos que estão na geladeira, pois como o clima é frio, demora muitos dias para estragarem. Aqui é tão frio que iogurtes são vendidos sem refrigeração nas lojas, ao lado de frutas e pacotes de bolacha.

San Miguel Suchixtepec é um lugar onde ainda há confiança entre as pessoas. Hoje de manhã fui comprar água filtrada e levei um garrafão, de três que tinha vazios pra encher. Chegando na casa que vende água, eu disse que estava levando um garrafão mas que durante o dia retornaria com mais dois. Na hora de pagar a mulher me disse: quando você trouxer os outros dois, você me paga. De tarde voltei com um amigo, enchemos mais dois garrafões e pagamos. Como tínhamos que ir à casa de outra pessoa, e subir com os garrafões seria muito esforço, simplesmente deixamos os dois garrafões que compramos na frente da casa, na calçada, e, quando retornamos, meia hora depois, eles estavam lá aguardando para serem carregados até a casa SARAR.

Esse é o pueblo de San Miguel Suchixtepec.

Referências: Honorable Ayuntamiento de San Miguel Suchixtepec

Metodologia participativa para comunidades

Metodologia participativa para comunidades

por Alan Morteam

Há um mês participei de um curso totalmente diferente de todos os cursos que já havia participado antes. Um curso de metodologia SARAR.

SARAR é um método de capacitação participativo que ajuda as pessoas a assumir um maior controle sobre suas vidas e seu meio ambiente, gerando um grande volume de informações num curto período, através do desenvolvimento da capacidade de resolver problemas e de administrar recursos. Pode ser aplicado em comunidades para executar diagnósticos, sensibilizar as pessoas sobre, virtualmente, qualquer tema e fazer planejamentos para resolução de problemas. Essas características me fizeram pensar como seria produtivo aplicá-la na Ilha do Marajó, em conjunto com os projetos da Fundação Villas-Bôas.

Essa metodologia foi desenvolvida por uma indiana, que hoje tem mais de 90 anos, e é largamente usada em todo o mundo, inclusive por organizações como o UNICEF. Essa metodologia não foi criada para ter uma aplicação em uma área específica, porém, historicamente, sua maior área de aplicação é em saúde, higiene e saneamento. SARAR é uma sigla que possui o seguinte significado:

S entido de autoconfiança

A ssociação com outros

R eação com criatividade

A ção planejada

R esponsabilidade

A seguir, uma explicação mais detalhada:

  • O indivíduo vê sua autoconfiança crescer quando nota que possui capacidades analíticas e criativas para solucionar seus problemas, e que elas podem ser utilizadas para melhorar sua vida.
  • Quando as pessoas compartilham suas idéias entre iguais e se unem em grupos para buscar soluções para seus problemas, a sensação de ser mais efetivas aumenta.
  • Uma pessoa criativa vê o que a rodeia e pode propor muitas maneiras de solucionar os problemas e resolver suas necessidades. Grupos criativos podem fazer maravilhas onde outros falham; assim, podem ser muito úteis à comunidade.
  • O planejamento de ações para resolver os problemas é algo crucial para a metodologia SARAR. Mudanças substanciais só podem ser obtidas se os grupos planejam e executam as medidas apropriadas.
  • Os integrantes do grupo que fazem o planejamento devem estar dispostos a assumir responsabilidades para executar as atividades e, dessa forma, alcançar benefícios em longo prazo.

 

Figura 1: discussão, entre os grupos, numa atividade da metodologia SARAR

O objetivo da metodologia SARAR é estimular os participantes a identificar seus problemas e ajudá-los a desenvolver suas habilidades de análise, planejamento e sua criatividade. Para cumprir esses objetivos, há personagens muito importantes chamadas facilitadores, que são os que vão conduzir e estimular os participantes a partilhar suas experiências, idéias, sentimentos, medos, esperanças, necessidades e crenças, auxiliando-os na resolução criativa de seus problemas.

O facilitador, como o próprio nome diz, é uma pessoa que irá facilitar o cumprimento dos objetivos da metodologia. Para isso, um dos requisitos fundamentais do facilitador é a humildade, pois deve colocar-se no mesmo nível dos participantes, ao invés de atuar como uma pessoa portadora da verdade e que tem a resposta para todos os problemas da comunidade; afinal, ninguém melhor do que os próprios moradores das comunidades para refletirem sobre seus próprios problemas e propor soluções para eles.

SARAR envolve os participantes em uma grande gama de atividades que estimulam a criatividade, a habilidade analítica ou ambas as características. Algumas requerem desenhos, recortes e outros materiais visuais, ao passo que outras não necessitam de nenhum material, somente os conhecimentos e experiências de vida que cada um traz consigo.

 

Figura 2: atividade chamada "História sem Meio", utilizado para análise dos problemas comunitários e para planejamento de ações

No curso de capacitação em metodologia SARAR, do qual participei, vimos aproximadamente 20 diferentes técnicas que podem ser utilizadas, dentro da metodologia. Uma que me chamou a atenção, batizada de “A palavra chave”, consistia em cada participante escolher aleatoriamente um pequeno papel, dentre vários iguais dispostos numa mesa. Cada papel possuía uma palavra associada, que podemos chamar de virtude. Essa atividade foi feita no primeiro dia, de cinco, de capacitação. Os participantes deveriam, em duplas, compartilhar suas “palavras chave”, dizer como essa virtude poderia impactá-los durante o curso e tentar mantê-la sempre na memória, durante os dias de capacitação. Todos os dias, no início das atividades, os participantes eram perguntados se as palavras-chave estavam influindo em seu comportamento.

O que é interessante dessa atividade é que ela foi criada quase por acaso, por Ron, um facilitador que possui mais de vinte anos de experiência na metodologia, aplicando-a em diversos países. Alguns dias antes do curso, chegando a sua casa, viu um estojo de lápis na calçada, molhado pela chuva. Dentro estavam algumas pequenas fichas que continham, cada uma, uma palavra como Ternura, Equilíbrio, Paciência, Simplicidade, Humildade, etc. Ele as deixou secando sob o sol durante um dia e viu que as fichas haviam ficado todas grudadas, depois de secas. Então, molhou-as todas mais uma vez, desgrudou uma por uma e deixou-as secando por dois dias, de maneira que foram recuperadas. Assim, teve a idéia de usá-las como motivadoras para os participantes do curso.

Um mês depois do curso eu ainda me lembro de minha palavra: simplicidade. Já que o curso se acabou, agora estou tentando aplicar a simplicidade na minha vida e nas minhas escolhas. É interessante como algo aparentemente casual, como Ron encontrar as fichas e criar uma atividade a partir delas, pôde gerar resultados que se arrastaram pelo tempo, perpetuando-se após o final do curso. Se vou me tornar uma pessoa mais simples, isso eu não sei (até porque poderíamos ficar horas discutindo sobre o que é ser simples), mas que essa palavra está em meus pensamentos diariamente, isso eu posso afirmar.