Assurinis, por que não são libertos com base no Juízo de Ponderação?

Assurinis, por que não são libertos com base no Juízo de Ponderação?

 

4 MARIA VILLAS BÔAS ASSURINIS

Texto: Maria VILLAS-BÔAS – Coordenadora da Fundação VILLAS-BÔAS.

Natural de: Ibirarema/SP.

Formação: Letras, Administração Escolar, Supervisão e Pós-graduada em Educação.

Data: 30/07/2015.


Com base no princípio da presunção da inocência ou da não culpabilidade previsto no artigo 5º., inciso LVII, da Constituição Federal no que tange o Código Penal, incumbe a parte acusadora o dever de comprovar a culpabilidade dos acusados, não deixando ensejar nenhuma dúvida quanto a ela.

           
Não havendo certeza, mas dúvidas sobre o fato em juízo, inegavelmente é preferível a absolvição dos acusados à condenação de inocentes, porque em Juízo de Ponderação, o primeiro erro acaba sendo menos grave que o segundo, ou seja, o Cacique Purakê e seu filho Oliveira estão detidos por mera denúncia anônima, onde até agora não existem provas concretas, que ambos estavam favorecendo a retirada de madeiras ou o desmatamento da floresta, portanto é preferível a liberdade deles!


            Embora a presunção da inocência não impeça a prisão de acusados antes do trânsito em julgado (sentença condenatória), porém existe uma permissão na Constituição Federal no artigo 5º, LXI onde diz que: “Ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente”.


            Vale ressaltar, que eles não foram pegos em flagrante, não tem antecedentes criminais, tem residência fixa, são trabalhadores dignos e provedores do sustento e da proteção de suas famílias, que no momento estão desoladas e sofrendo com uma situação triste e degradante.


            Com base no artigo 312 do Código do Processo Penal, pergunto: Por que então não é interposta a liberdade ao Cacique e seu filho? Quais perigos esses cidadãos oferecem a sociedade, para continuarem encarcerados dessa forma?

 

            Os artigos 231 e 232da Constituição Federal, deixam bem claros o respeito à alteridade aos índios, ou seja, se um índio é tido como réu há a necessidade de se estabelecer averiguações adequadas para aferição sobre o cometido ilícito, a fim de permitir o julgador compreender por quais motivos os indígenas se pautaram ao internalizarem o valor do bem tutelado pelo direito penal por eles violado. Quais violações os Assurini’s cometeram? Onde estão as provas concretas do(s) acusador (res), para caluniá-los a ponto de estarem presos feitos pássaros na gaiola?

 

            É importante que seja feita uma análise concreta do caso e não uma presunção geral pautada numa denúncia anônima, porque se for com base na presunção geral o Direito Penal fica privado de ser instrumento de justiça e só irá reafirmar sua opressão aos menos favorecidos, ou seja, o artigo 231 da Constituição Federal está sendo violado, ‘ferimento mortal’ dos direitos fundamentais dos índios e do próprio Estado Democrático de Direito. Portanto, toda e qualquer investigação oficial instaurada a partir de denúncia anônima, que não tenha sido previamente muito bem averiguada através de outros tipos de provas, deve ser anulada por ser ilegal e isso pode ser feita através de habeas corpus.

 

            Enfim o parágrafo único do artigo 56 do Estatuto do Índio determina que “as penas de reclusão e detenção serão cumpridas, se possível, em regime especial de semiliberdade, no local de funcionamento de órgão federal de assistência aos índios, visando evitar a perda da identidade étnica e cultural”, porém Cacique Purakê e seu filho Oliveira não foram condenados e não tem razão de serem, então por que ambos continuam presos?Portanto a Fundação VILLAS-BÔAS e nós cidadãos brasileiros conscientes dos nossos deveres, mas também dos nossos direitos, clamamos numa só voz: Libertem nossos irmãos Assurini’s!

           

Referências

Barreto, Helder Girão.-Direitos Indígenas-1ª. Ed. Curitiba, 2011.

Paschoal, Janaina Conceição. - O índio, a Inimputabilidade e o Preconceito-1ª. Ed. Curitiba, 2010.

Jesus, Damásio Evangelista. - Código de Processo Penal.

Moraes, Alexandre de. - Direito Constitucional e Direitos Humanos Fundamentais.

Cunha Júnior, DirleydoNovelino. - Constituição Federal.

A Agonia do Cerrado

A Agonia do Cerrado

    Vivemos tempos de intolerância com instituições, governos, religiões, indivíduos e suas escolhas. Sem dúvida tempos difíceis! Concerne a nós da Fundação Villas-Bôas como instituição defensora de todas as populações de fauna e flora, humanas e não humanas,indígenas e não-indígenas, tradicionais e não tradicionais que não tem voz ativa nos meios de comunicação, que não tem espaço nas mídias sociais, que não tem acesso sequer a elas e mesmo que tivessem não saberiam como expressar sua indignação com a intolerância e a verdadeira marcha de destruição que se lança a toda a força sobre seus habitats, suas vidas, suas moradias, suas aldeias, suas histórias e sua existência e franca erradicação.
    
Por hora gostaríamos de abordar o bioma que teve sua extinção decretada este ano pela ciência brasileira, especificamente pela PUC (Pontífice Universidade Católica) do estado de Goiás, via o professor doutor Altair Sales Barbosa, Antropólogo, Arqueólogo e professor da respectiva universidade que já está organizando o Memorial do Cerrado.

CERRADO BRASILEIRO


    Infelizmente não há argumentos suficientes para discordar do professor, mesmo com o coração apertado pela agonia desta verdade e a mente lutando, mapeando, pressionando a cabeça “mas o cerrado é tão grande!”. Mentalmente procuramos mapas do cerrado brasileiro, vamos ao atlas, vamos aos buscadores de imagens da internet e ele está lá! Entre a chapada dos Parecis em Rondônia até o reverso das escarpas de colúvio da chapada Diamantina; das vertentes das serras das Araras, Roncador, Dourada e da Mesa até o monumental Espigão Mestre até as últimas escarpas do sul da serra do Maracaju, pela Depressão Periférica Paulista até proximidades do reverso das escarpas da serra da Mantiqueira e do Espinhaço!  Um tapete verde amarelado no coração do Brasil. Mas trata-se apenas da área que foi – no passado - ocupada por esta paisagem rústica, bela e luxuriante! No passado antes dos Planos de Integração da Amazônia, do Polo Amazônia e do Polo Centro Oeste, antes da expansão da fronteira agrícola, antes do advento da calagem – verdadeiro “estupro químico” do solo para o plantio de milhares e milhares de hectares de soja cobrindo imensas áreasdos estados do centro oeste brasileiro.

SOJA NO CERRADO BRASILEIRO

    Hoje é possível correr pela rodovia Marechal Rondon – BR 364 - por dias de campos de soja nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso até Rondônia e pela rodovia Transbrasiliana – BR 153 (mais conhecida como Belém Brasília), nos estados de Goiás e Tocantins. Silos prateados reluzem sobre um mar de campos verdes sob o calor fustigante do interior do território brasileiro. Lembro-me do ano 2000 quando passei por essas áreas a caminho de congressos comemorativos dos 500 anos de história do Brasil, no norte e ele ainda estava lá! O cerrado ainda estava lá! Por horas e horas de viagem! Estendido feito o tapete verde amarelado que era, salpicado de arbustivas e arbustivas arbóreas retorcidas com suas folhas grossas que disparavam óleo ao quebrá-las para coletas dos experimentos de viagem da faculdade, as cascas dos troncos e galhadas que estouravam um pó com odor forte, a figura magnífica retorcida daqueles indivíduos de fauna esparsos sobre o céu azul anil de um universo ainda intocado.

    A primeira vez que soube do “correntão” – método usual para o desmatamento do cerrado ainda vigente nos menos de 7% que restam, segundo o professor Altair, foi em conversa de viagem entre geógrafos, profissão da qual partilho as dores e alegrias de ter por escolha e paixão pelo meu país.

    Não consegui acreditar na crueldade do método. Tratores utilizam correntes de âncora de navios de grande calado - correntes de peso elevado e grande extensão, portanto – e seguem arrastando por centenas de hectares a vegetação indefesa.

    Imagens desse verdadeiro extermínio são, assim como mapas da área do cerrado no Brasil, fáceis de encontrar nos buscadores de imagens da internet “correntão” e “cerrado” são as palavras chave indicadas para encontrá-las e sangue frio para ampliá-las e analisá-las.

    Todos os seres vivos tem o direito de se defender quando atacados. Quando o ataque é massivo, sem defesa e sobre contingentes humanos é chamado genocídio.

    Qual a palavra para o uso da técnica do “correntão” no cerrado brasileiro.
    “ Limpar “, diz o empreiteiro responsável pelo preparo da área que será um futuro plantel de soja.

    Já ouvi este termo antes. Muito usado por sitiantes e chacareiros aqui do sul para retirada de mata atlântica que é substituída por roçados de mandioca e banana porque “o solo por aqui é muito ruim”!
    Ruim? Tão ruim que era coberto pela Mata Atlântica “o mato enjoado” e sua biodiversidade que até hoje nos seus menos de 5% de existência é considerada uma das maiores do planeta.

    Há um descompasso, portanto, e a olhos vistos! O que é riqueza? Faturar milhões com a venda de soja aos estadunidenses, japoneses e alguns países europeus ou a diversidade de fauna, flora e farmacologia de um bioma natural, também se encontramdefinidos os defensores de cada um dos lados.

    Temos, portanto, uma derrota monumental com a afirmação do professor Altair.

    Há muito a discutir sobre sua argumentação bastante edificada como estudioso da questão, afinal assim caminha a ciência e ainda bem, mas não há como refutar a ideia principal. O Brasil marcha sobre seu próprio território como uma lagarta de tanque de guerra, demolindo sua natureza em nome de valores econômicos e prerrogativas de exportação que ainda remetem ao velho modelo monocultor colonial de mais de 500 anos atrás.

    Sem dúvida uma reflexão profunda que concerne a nós da Fundação Villas-Bôas – como já foi citado no início deste texto – e concerne também a todos os brasileiros, pois esta paisagem não estava só! Além dos indivíduos e populações de flora, lá também estavam os magníficos indivíduos de fauna, as populações tradicionais e não tradicionais, os indígenas e não indígenas ícones de nossa cultura! O sertanejo das veredas de Guimarães Rosa e Rachel de Queiroz!  Para onde foram todos? O tamanduá bandeira, a onça pintada e o lobo guará agora pilotam as ceifadeiras/semeadeiras com ar condicionado que preparam os campos para o plantel? Os sertanejos e indígenas trabalham no ensacamento e silagem dos grãos? Alguém pensou em alguma forma de proteção, conservação, preservação ou inserção dessas populações? E as espécies e seu valioso conteúdo farmacológico? Alguém pensou? O professor Altair pensa quando fala da montagem de um memorial do cerrado.

    Então é este o triste e inegável fim?

    Não consigo expressar em palavras, a dor que sinto como brasileira, como geógrafa, como pesquisadora, como professora que luto todos os dias para continuar sendo e lutar para transmitir em salas de aula fechadas em prédios aqui na “urbes” cinzenta paulistana a agonia das paisagens naturais brasileiras.

    A agonia do cerrado em ser exterminado sem direito de defesa alguma!

    A agonia da qual partilhamos nós geógrafos, biólogos, ambientalistas e demais cientistas envolvidos com este triste processo e ter que estudá-lo com frieza científica devida para elaborar modelos, gráficos de dados e diagnósticos precisos necessários à constatação, como faz com maestria o professor Altair. O primeiro a ter coragem de afirmar: “O cerrado brasileiro está extinto!”.

    Dizem que o melhor caminho para a cura é um diagnóstico preciso.

    Infelizmente - neste caso – não.

 

ANGÉLICA PASTORE
Angélica Pastori de Araujo
Coordenadora Expedicionária da Fundação Villas-Bôas
Graduada em Geografia pela Universidade de São Paulo
Geógrafa e Pesquisadora das Fronteiras Amazônicas há 20 anos
Professora do CursinhoPré Vestibular Hexag em São Paulo

A ALEGRIA DE ZILDA SILVA VILLAS-BÔAS EM AJUDAR E ESTAR ENTRE OS POBRES!

A ALEGRIA DE ZILDA SILVA VILLAS-BÔAS EM AJUDAR E ESTAR ENTRE OS POBRES!

           Zilda Silva Villas-Bôas, ‘VILLAS’ com dois eles e ‘BÔAS’ separado, porque não gostava que escrevessem seu nome e sobrenome errado, inclusive, um homem da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, quando ia perguntar escrever o nome dela e perguntava se colocava o Silva, ela logo respondia: “É claro, escreva meu nome corretamente e não se esqueça do Silva. Aí não pode”!

            Nasceu em 09/07/1920, na cidade de Bebedouro - SP, logo após a 1ª. Guerra Mundial. Filha do Sr. Joaquim Ferreira da Silva e da Srª. Rosa Pellegrino da Silva e neta  materna de italianos que vieram morar no Brasil. “Meu avô era daqueles italianos bem bravos”, contou Dona Zilda”.

           Zilda era de uma família grande como a maioria da família do começo do século XX. Tinha dez irmãos: Zélia, Pedro Benedito, Francisco Jorge, Terezinha de Jesus, Maria Anita, João Batista, Maria Clara, Maria Julia, Maria Zélia e Aparecido Carlos, todos nascidos em Bebedouro tendo  uma infância muito boa e feliz.

            Seu pai o Sr. Joaquim Ferreira da Silva, tinha uma selaria na cidade, onde fazia muitas coisas. Zilda mesmo sendo feliz e tendo uma infância e adolescência com muitos amigos (as), queria buscar mais e teve sempre o objetivo de ter um crescimento cultural maior, portanto, fez o Ginásio onde seu Diretor era o tio Pedrinho (Pedro Pelegrino), que era também professor de música e maestro. Depois do Ginásio fez o Magistério em Bebedouro.

    Casou-se aos dezenove anos de idade com o Sr. João Baptista Villas-Bôas, foi mãe de cinco filhos: Ruy, José Roberto, João Batista (sem p), Márcio Sérgio e Paulo Celso Villas-Bôas. Quatro deles nasceram em Bebedouro e  o Roberto  nasceu em Campinas.

           Seu esposo era tipógrafo, trabalhou na Matarazzo em Bebedouro em 1939, era também jogador de futebol pelo Internacional de Bebedouro e jogava por toda a região.

            João era jogador de futebol ( goleiro), nessa época atuava no Clube Ponte Preta e era conhecido pelo apelido de Zico. Atuou também no Palmeiras em São Paulo e foi reserva do conhecido Oberdan.

           Aos dezessete anos já conhecia a cidade de São Caetano do Sul, assim como naquela época era comum famílias mudarem para cidades maiores com o objetivo de arrumar emprego para os filhos que já estavam crescidos. O mais velho já tinha quase dezoito anos e queria ter uma melhoria de vida também. Na época o João era funcionário do Banco do Brasil e assim pediu transferência de Bebedouro para São Caetano do Sul.

    Bebedouro era um lugar muito bom para morar, mas seus filhos já estavam moços e precisavam aprender a trabalhar, para comprar suas coisas, enfim não queriam ficar mais nas custas do pai.

    “Ao mudar para São Caetano do Sul, fomos morar numa casa em frente ao Hospital Beneficência Portuguesa e logo reencontramos os amigos Ademar Olívea Xavier e sua esposa Nair Gonzáles Xavier. Falei para Ademar se a Nair poderia trabalhar comigo, afinal nós já nos conhecíamos, porque eram de Bebedouro, inclusive, o Sr. Ademar era colega de trabalho do u esposo no Banco do Brasil. O Sr. Ademar e sua esposa Nair, vieram uns meses antes para São Caetano”.
Zilda trabalhou na Escola de 1º. Grau Dom Benedito e também em Arthur Rudge Ramos. Lecionou por muito tempo e ao mesmo tempo trabalhava para entidades sociais, inclusive, seu filho mais velho falava: “Que ela não esperava os pobres virem a dela, ela é quem ia atrás deles”.

Zilda logo se aproximou dos clubes de serviços sociais para prestar socorro aos necessitados. Durante dez anos ela e o esposo foram patronos do Lions Club de São Caetano do Sul.      O esposo a acompanhava e dizia para ela que tomasse parte de tudo, mas que não colocasse ele no meio, afinal ele queria mais era acompanhá-la e dar-lhe apoio e se embrenhar no mato. Zilda também comentou durante a entrevista que sempre recordava da época  em Bebedouro, onde já freqüentava a sociedade quando ela saia no carnaval com seus irmãos......

Trabalha a mais de 40 anos como secretária da APAMI e do Roupeiro de Santa Rita (organização que arrecada roupas para os necessitados). Também faz parte da Rede Feminina de Combate ao Câncer há 30 anos. Na última quinta feira reunimos (professoras aposentadas). Escolhemos um local e fazemos uma filantropia (...) Este mês ainda não sei aonde irá se realizar.

Com isso o tempo foi passando e eles se acostumando mais em São Caetano. Na época os filhos já estavam todos ‘encaminhados’. O Roberto faculdade no IMES, Ruy montou um escritório em São Paulo e ficava sabendo de cada coisa!  “Ele sempre foi muito sapeca” (risos), eu ficava me perguntando: Com quem esse menino puxou? ”Esse sempre chegava com um sorriso no rosto. João Batista sem (p)... risos.....fez engenharia e construiu algumas obras na cidade”.

“Paulo Celso adora mato e índios como o pai e quer fazer uma expedição pelo Brasil, pretende trabalhar com pessoas carentes e ‘trabalhar’ a conscientização sobre a importância da natureza, coisas de Villas-Bôas. Atualmente, Paulo Celso tem uma fábrica de moveis em Belém do Pará”.

O Sr. João Baptista Villas-Bôas, depois que se aposentou ‘correu’ o país na região do Centro-Oeste e Norte (por conta própria) fazendo a identificação dos indígenas e não indígenas. Por isso que não acompanhava a Srª. Zilda em eventos sociais. Ele dizia que ela era mulher de hotel cinco estrelas e não sabia admirar a natureza Ele até a convidava, mas ela com tantos afazeres acabava não aceitando.

Com o tempo mudaram na  rua Prudente de Moraes. Ficou casada por cinqüenta e quatro anos e na época da entrevista ao jornal contou que fazia treze anos que seu esposo havia falecido e se desabafou dizendo, que a morte do seu esposo foi uma pena e uma grande perda para todos da família.

No final da entrevista ela falou que estava com oitenta e seis anos, mas continuava fazendo o que gostava. Srª. Zilda diz: “Ontem mesmo escrevi para o Jornal Agora, porque li uma reportagem de uma artista que tinha comprado 53 (cinquenta e três) pares de tênis, porque estava grávida e dizia não poder usar sapatos! Com tanta gente passando fome e ela menosprezando os outros”?  “Essa não foi a primeira vez que eu fiz isso, Se a coisa fica ruim, eu já tomo parte, só estou esperando sair no jornal”.

E termina sua entrevista dizendo: “A desigualdade é algo muito egoísta, não posso ver pessoas em dificuldades, tenho que ajudar! Repartir é fácil ajudar os pobres também”.

PAULO e MAMÃE ZILDA

Eu Paulo VILLAS-BÔAS e minha mãe Zilda Silva VILLAS BOAS


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Competição na natureza?

Competição na natureza?

“Julgamo-nos muito inteligentes. Realmente somos, se observarmos desde o prisma de que somos os únicos animais que cavam sua própria cova” – Ernst Gotsch.

Essa foi uma frase dita pelo suíço Ernst Gotsch durante um curso sobre agroflorestas ministrado no Tibá (instituto de Tecnologia Intuitiva e Bioarquitetura). Essa frase versa sobre a realidade que vivemos de consumo desenfreado, exaurindo os recursos naturais do planeta, iludindo-nos com o “ter”, enquanto o mundo caminha para um colapso ambiental.

Com esta “blogada” pretendo compartilhar as idéias de Ernst Gotsch, um suíço que estudou e trabalhou com melhoramento vegetal até a década de 1970 em sua terra natal, viveu na Costa Rica e depois se instalou no Brasil, na Bahia, onde vive até hoje, 2012. É dono de uma terra de cerca de 500ha (hectares), a qual adquiriu totalmente improdutiva e degradada, após apostar com um amigo que conseguiria recuperar a área, transformá-la numa floresta e viver de seus produtos. Isso mesmo, uma aposta. Após 15 anos a propriedade havia sido totalmente revegetada, inclusive com retorno da fauna local. A técnica utilizada para a revegetação foi o sistema agroflorestal (SAF), por meio do qual ele produz cacau de alta qualidade, além de comida para sua família e outros produtos, tudo sem usar agroquímicos, claro. (Parte das informações foram retiradas da biografia de Ernst na Wikipédia).

Competição ou cooperação? O que move as interações entre as espécies no nosso mundo? A competição é inerente e instintiva nos seres vivos, como normalmente se afirma na mídia (jornais, revistas, rádios, etc.) e nas aulas de biologia/economia nas universidades? Ou isso seria apenas uma forma de justificar o capitalismo como modo de produção? Para refletir sobre isso, escrevo a seguir duas histórias narradas pelo suíço.

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Figura 1: Ernst Gotsch, no centro da foto, durante curso no Tibá

História um: Ratos e cobra

Imagine alguns ratos num espaço delimitado e grande o suficiente, com água e alimentação disponíveis em boa quantidade. Nesse mesmo espaço é colocada uma cobra, que também recebe alimento suficiente. Apesar de dividirem o mesmo espaço, a cobra não tentará comer nenhum rato; porém, se propositadamente é diminuída a quantidade de alimento ou de água disponíveis aos ratos, algo ocorrerá: após um tempo, o rato que está mais faminto (ou sedento) se deslocará em direção à cobra e “pedirá” para ser comido, para acabar com seu sofrimento, e a cobra o comerá.

História dois: Gazelas e leões

Trabalhando como consultor internacional na instalação de poços, Ernst foi visitar uma aldeia na Namíbia, África, para uma reunião com os líderes locais. Lá chegando, ficou contrariado ao ver que ninguém estava esperando-o para a reunião e que todos estavam em festa. Imagine só um suíço, com todo aquele rigor com horários e responsabilidades, chegando para uma reunião e ninguém o está esperando. Sem muita paciência, perguntou qual era o motivo da festa a um homem da comunidade. O homem fez uma cara de espanto pela pergunta, mas respondeu: “Você não está vendo? As gazelas estão se reproduzindo”. Sem entender, Ernst replicou: “E o que tem isso?”. Após outra cara de espanto, o homem respondeu: “Significa que vai ter chuva!”. Ainda sem entender, o suíço desistiu de fazer perguntas. Depois soube que na Namíbia, um país muito seco, há anos em que a chuva é bastante escassa. As pessoas da aldeia sabem que um ano será chuvoso quando as gazelas começam a cruzar, pois, de alguma forma, esses animais sabem que irá chover e que haverá abundância de alimentos (pois são herbívoros), então se reproduzem. Ao contrário, nos anos em que a chuva será escassa, são os leões que se reproduzem, pois não haverá alimentos suficientes para as gazelas e sua população precisa ser controlada pelos seus predadores. Então, os leões, em maior número, comem as gazelas menos aptas a sobreviverem na escassez de alimentos.

De acordo com essas histórias, pode-se apreciar a beleza das relações ‘predador x presa’, e como elas se dão no sentido de manter o equilíbrio dinâmico da natureza. O rato só se torna presa da cobra quando vê prejudicada sua função no ecossistema, pela escassez de alimentos (ou água). Assim, se encaminha para alimentar seu predador. Dessa forma, o rato e a cobra cumprem seus papéis no ecossistema, e a relação predador x presa agora pode ser vista sob um novo paradigma, baseado na cooperação e no amor incondicional entre as espécies. Na Namíbia, podemos ver mais uma relação predador x presa sob o aspecto dessa cooperação e amor incondicional: nos anos de abundância de alimentos para as gazelas, a população de leões permanece a mesma, mas quando os alimentos para as gazelas se tornam escassos, os leões se reproduzem para controlarem a população de gazelas e manter o equilíbrio do ecossistema.

Desta forma, se nota que as relações são baseadas na cooperação e auxílio mútuo, com cada espécie cumprindo seu papel harmonicamente no momento oportuno. É importante frisar que as relações ‘predador x presa’ não mudaram, essa é somente uma nova forma de enxergá-las...

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Figura 2: As formigas são as jardineiras naturais, pois realizam a poda das plantas que não estão desempenhando bem seu papel no ecossistema. Se seu pé de laranja está sendo cortado pelas formigas, é porque a planta não está num local adequado.

A idéia da agrofloresta se baseia na observação da natureza: numa floresta densa, as plantas nascem todas bem perto uma das outras, a ponto de não conseguirmos penetrar nesses locais sem o uso de um facão. Na formação natural de uma floresta (ou na recuperação), há as plantas que nascem antes de todas as outras, que nutrem o solo, fazem sombra e preparam o espaço para que outras espécies vegetais nasçam posteriormente; há também, espécies que se desenvolverão no local após este começar a ser visitado por determinados tipos de animais, que são dispersores de sementes. Geralmente, na sucessão natural, as plantas são separadas em pioneiras, primárias e secundárias, sendo as pioneiras as primeiras que surgem no local; portanto, são as menos exigentes em termos de sombra e nutrientes no solo; as primárias vem em seguida, e as secundárias são as que se desenvolverão por último, após anos, talvez décadas, requerendo um ambiente muito mais equilibrado e complexo (são plantas características de florestas em seu clímax). O que Ernst fez para recuperar a área foi realizar plantações respeitando as características de cada espécie, e hoje vive da extração de produtos de sua área, principalmente o cacau, de altíssima qualidade. Tudo isso, claro, sem o uso de agrotóxicos ou fertilizantes, sem curvas de nível, pois elas não existem na natureza, e talvez o mais interessante: sem irrigação. Ele interfere somente para acelerar um processo de regeneração natural da floresta.

Nós, ’Homo sapiens sapiens’ (aliás, quanta arrogância neste nome, não?), que gostamos de nos ver como um ser à parte no ecossistema, somos também animais, e possuímos uma função na natureza, ou, pelo menos possuíamos antes de perdermos nossas raízes. Segundo Ernst, nossa função no ecossistema é de formadores de clareiras, ou seja, formamos clareiras em florestas. Agora que já possui uma área totalmente florestada, Ernst pode cumprir sua função no ecossistema. Ele derruba uma área de sua floresta, de um hectare (100m x 100m), por exemplo, e faz a plantação de uma nova agrofloresta, colocando verduras, raízes como mandioca e inhame, grãos, árvores frutíferas, árvores para extração de madeira, etc., tudo junto, num espaço bem reduzido. É assim que obtém seu alimento.

Algo interessante que Ernst nos disse foi que uma parte da recuperação de sua área foi feita com espécies exóticas, o que é exatamente o oposto do que dizem os pesquisadores e cientistas. Segundo eles, o reflorestamento de uma área só deve ser realizado com espécies nativas, ou seja, espécies que pertencem ao ecossistema original da área, como Mata Atlântica, floresta Amazônica, Cerrado, Caatinga, etc. Isso faz todo o sentido, já que as espécies exóticas são de outros ecossistemas, até de outros países, e não recuperarão o ecossistema original da área. Porém, o que aconteceu no caso do Ernst foi: ele plantou as espécies exóticas, e elas foram sendo substituídas por espécies nativas, naturalmente, através da dispersão de sementes realizada pela fauna da região, atraída pela vegetação. Esse resultado prático pode revolucionar a recuperação de áreas degradadas e o interessante é que tudo está documentado e será disponibilizado na internet, segundo o suíço, no site www.agendagotsch.com.

Sim, são idéias que vão contra o senso comum. Mas vindas de Ernst, com a experiência e com os resultados que ele tem para mostrar-nos, elas merecem no mínimo uma análise cuidadosa. Vem surgindo um novo tempo, e é melhor que nós, ‘sapiens sapiens’ comecemos a usar toda nossa ‘sapiência’ para cooperarmos entre nós e com as outras espécies... melhor que cavar nossa própria cova.

Para mais informações:

Documentário: Neste chão tudo dá (22 minutos) http://www.youtube.com/watch?v=dvv85bE_7HY

Site de um novo projeto de Ernst Gotsh:

http://www.agendagotsch.com/

Reflexões sobre a semana da água e o Marajó

Reflexões sobre a semana da água e o Marajó

ANGLICA_PASTORI_IIAngélica Pastori     -     Geógrafa e Historiadora

Dia 22 de março foi o dia mundial da água. Como de costume lindas campanhas, textos e imagens nos colocaram a refletir sobre este precioso bem natural, sua riqueza em nosso planeta e os riscos que suas reservas estão correndo nesta época de consumo excessivo e informações controversas.

Para a compreensão desta gama de informações o saber é imprescindível e a contribuição da ciência neste aspecto é vital!

As áreas da ciência que estudam as águas de nosso planeta, seus diversos estados e poderes de transformação revelam a incrível variação deste elemento e suas capacidades. Ainda aprendemos e temos muito a aprender com seus mistérios.

LAGO_DO_ARARI

Lago do Arari - Santa Cruz do Arari - Marajó, Essa imensidão de água no verão seca seu solo fica parecendo crostas como se fosse pedaços de ovo de páscoa.

Podemos tomar como exemplos algumas ciências e especializações científicas que efetuam estudos gerais e precisos: uma delas é a hidrografia, ciência que estuda as águas doces de superfície, seu poder de deslocamento e acúmulo de materiais entre outros processos; a hidrologia, ciência responsável pelo estudo das águas doces subterrâneas, constituição química e afloramentos de superfície entre outras características e processos; a oceanografia para o estudo das águas salgadas como os oceanos, os mares e suas relações com as margens continentais entre outros processos; a geomorfologia costeira, especialização voltada para o estudo de sua ação nas bordas dos continentes; o estudo de ecossistemas costeiros, especialização cujo estudo é voltado para entendimento das relações entre os elementos de flora, fauna e a paisagem natural constituída pelas relações entre os sistemas continentais e os marinhos e outras tantas áreas do conhecimento humano, dedicadas a compreensão deste componente elementar à vida na rica forma em que se manifesta em nosso planeta.

A combinação dessas áreas científicas pode favorecer o mapeamento de regiões naturais únicas no planeta Terra. O Golfo do Marajó é sem dúvida um fantástico exemplar!

Com mais de 2.600 ilhas variando desde ilhotas até a ilha maior totalizando mais de 40.000 km2, este complexo leva a denominação generalizada de arquipélago do Marajó, palavra originária da língua indígena Tupi MIBARAIÓ, que pode significar “anteparo do mar” ou “tapamar”, utilizada para nomear o que de fato é um grandioso acidente geográfico entre a fúria do rio das amazonas e o poderoso oceano Atlântico.

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Ao estudarmos o comportamento das águas e terras nessa região, verificamos um verdadeiro duelo de titãs cujos avanços e recuos alternados destes dois sistemas – águas doces e sedimentação continental e águas salgadas e areias costeiras – originaram este arquipélago fascinante e rico em diversidade de paisagens físicas e comunidades humanas para as quais a Fundação Villas-Bôas tem desenvolvido uma força tarefa de luta por dignidade de existência a altura de sua magnitude e de suas necessidades.

Em minhas ações de divulgação dos programas da Fundação para o Arquipélago e das intenções desta força tarefa, as dúvidas da plateia sempre giram em torno de suas dimensões principalmente quando os interessados entram em contato com a abrangência e variação dos programas e projetos voltados para as comunidades marajoaras. Estas dúvidas me levaram a escrever este texto como uma tentativa de reflexão sobre um assunto tão pertinente a esta data comemorativa mundial.

Assim como existem muitas ideias equivocadas e informações superficiais sobre a água no planeta terra a maioria dos interessados que entra em contato com os programas da fundação para o arquipélago, acredita que o Marajó seja uma ilha - alguns uma cidade amazônica até - mas a maior parte das pessoas tem a interpretação do Marajó como um arquipélago localizado na Amazônia o que já é um bom começo! Há algum esclarecimento de que este arquipélago se relaciona com o rio Amazonas e localiza-se próxima do oceano Atlântico.  Porém quando anunciamos as dezenas de cidades e vilas, os milhares de habitantes e as dimensões territoriais semelhantes a vários territórios de estados brasileiros o assombro é geral.

Trata-se de fato de uma das maiores dificuldades no aprendizado da geografia de nosso país. Os habitantes do sul e do sudeste tem uma visão diferenciada das dimensões territoriais brasileiras em relação à visão dos habitantes do norte e nordeste do Brasil. Estas questões estão relacionadas ao aprendizado da cartografia e da disposição de nosso território na faixa tropical do planeta e são vazios de conhecimento que tem origem na educação fundamental de nosso país.

Rimos muito – nós que já conhecemos de fato a região – das confusões que as pessoas que nos pedem orientação fazem ao viajar, fazer compras ou simplesmente obter informações, acreditando de verdade que Belém e Manaus são próximas, como São Paulo e Santos ou coisa assim, quando as distâncias reais são de 9 dias de viagem de barco de uma a outra, meu exemplo favorito nas conversas e aulas de geografia que leciono.

Gosto particularmente de apresentar nas minhas aulas comparações territoriais brasileiras com outras localidades do globo, como por exemplo, comparar o território do estado da Bahia com a França, destacando que a Bahia é maior. Ou então comparar o território do Pará com o território do Egito, sendo o Pará, maior. Essa compreensão é essencial para que as pessoas comecem a entender o grau de dificuldade que é gerenciar nosso país e porque muitas regiões, cidades e suas comunidades como é o caso dos marajoaras não são contempladas pelos projetos governamentais. Estas comunidades localizam-se em uma área territorial equivalente a 1/5 do estado de São Paulo, semelhante ao estado de Santa Catarina ou o estado do Rio Grande do Norte e justamente por serem estas informações desconhecidas da maioria dos brasileiros é que as dificuldades na administração adequada das tantas demandas de sua população acabam por favorecer ao abandono. Não há quem se interesse, acompanhe ou cobre ações das autoridades por puro desconhecimento de suas dimensões e da profundidade de suas carências.

Como paisagem o arquipélago do Marajó é uma das maiores belezas que tive o prazer de conhecer e navegar em minhas viagens pela Amazônia. É um espanto que tão bela gente e tão grande esplendor cultural desta magnífica região passe por tantas necessidades básicas em pleno portal de entrada da área mais estratégica do território nacional. Esta perplexidade me levou a ser voluntária da Fundação Villas-Bôas e a divulgar com muito orgulho os planos de ação de nossa força tarefa para esta vasta e belíssima região que – como todas as regiões naturais brasileiras – precisa de atenção, planejamento e ação. Uma vez efetivados os programas já em desenvolvimento pela sua dignidade como região e população nacionais, pode se tornar uma potência ambiental, turística e cultural de nosso país como merece ser! Não só mais uma campanha do dia da água, mas uma realidade de todo o dia, como todo o nosso país merece ser! Ser e usufruir sustentavelmente da riqueza que possui!

MISSES

Caso tenha simpatizado com esta causa, peço que acesse as páginas de nosso site e conheça nossos projetos e programas para o Marajó. Compartilhe seus conteúdos, assine e divulgue nossa petição, pela dignidade das comunidades marajoaras. Faça parte desta enorme força tarefa cheia de vontade de transformar esta região e trazê-la ao seu verdadeiro posto de guardiã de entrada da Amazônia brasileira!