VIAGEM A CANANÉIA-SP PDF Imprimir E-mail
 Dia 27 de abril de 2009 fui convidada para conhecer a cidade de Cananéia que fica no estado de São Paulo. Entretanto, para chegar ao município, tive que passar pela grande capital São Paulo. Ao sobrevoar a cidade, fiquei impressionada com a enorme quantidade de prédios aglomerados pelos quatro cantos da cidade. Pousamos no aeroporto de Congonhas, que é extremamente movimentado. A viagem até lá teve a duração de aproximadamente 6 horas. Estava muito frio em SP, em torno de 17°c. 

Ao sair do aeroporto, já notava o ar metropolitano da cidade. Pessoas indo e vindo, vestidas de todas as formas possíveis, muitos carros na rua parados pelo congestionamento. Segui então para a estação de metrô São Judas, o qual eu seguiria até a rodoviária de Barra Funda para pegar o ônibus até a ilha de Cananéia. O metrô de SP é um dos melhores do Brasil. Ele passa em um intervalo de quatro em 4 minutos e demora-se em torno de 15 a 20 minutos para se chegar ao outro lado da cidade.

 

                                              Metrô de São Paulo, um dos melhores do Brasil.

 

 

                                Visão de São Paulo da Rodoviária de Barra Funda. Fotos: Rayssa Barros.

Ao chegar à rodoviária, depois de certo tempo esperando, encontrei com meus dois colegas de viagem: Júlio e Alex, ambos biólogos especialistas em zoologia. Depois de certo tempo na estrada, chegamos a Ilha de Cananéia. A cidade histórica, uma das mais antigas do Brasil faz parte do eixo do complexo estuarino-lagunar ou Lagamar do Vale do Ribeira-Serra da Graciosa. Esta região, localizada no litoral sul do Estado de São Paulo, é uma das últimas áreas remanescentes da Mata Atlântica e um dos últimos ecossistemas não poluídos do litoral brasileiro (CANANÉIA, ANO NÃO PUBLICADO), sendo composta por várias ilhas. Toda a região que compõe o Lagamar foi formada a partir de acidentes geográficos ocorridos na região há séculos atrás, sendo que hoje as transformações ainda continuam.

                                                           Estação Quarentenária de Cananéia 

 

Fotos: Rayssa Barros

Ao sair diariamente para fazer os trabalhos, contemplei a beleza de Cananéia. Junto com Cananéia também estão a Ilha do Cardoso e a Ilha Comprida que apresenta praias exuberantes com as águas verdes do Oceano Atlântico. A população gira em torno de 10 a 12 mil habitantes segundo alguns moradores. A ilha é habitada há séculos por várias comunidades tradicionais, entre elas se destacam os Caiçaras e os Indígenas, que juntos construíram a história da região.
 
Os Caiçaras são fruto de uma mistura entre portugueses, negros e indígenas que antigamente viviam da caça e da pesca. Alguns plantavam arroz, outros trabalhavam com mineração, mas todos tinham algo em comum: a maneira como desenvolviam essas atividades. Até hoje é possível ver a que a maioria dos moradores ainda pescam, através de uma estrutura toda feita de varetas e uma rede: o cerco. Com ele os peixes entram por um pequeno buraco e não conseguem sair, ficando aprisionados até que os pescadores venham recolhê-los de lá na maré baixa. Outra cultura da região é o Fandango, uma música típica que os moradores fazem nas festividades locais.
 
Cananéia, assim como todo o complexo estuarino Lagunar apresenta várias unidades de conservação de inúmeras categorias, as quais todas são protegidas por lei federal e estadual. Entretanto quem realiza a proteção dessas áreas não são os Guarda-parques, mas sim a polícia militar, cuja presença ainda é precária. Notei que na ilha também existe o Monitor Ambiental, um profissional que atua como guia turístico em excursões por toda a região. Infelizmente, assim como na maioria das regiões brasileiras, o profissional Guarda-parque ainda não é reconhecido neste local.
 
Ao conversar com os moradores da região pude sentir um pouco da vida tranqüila e pacata que esta comunidade apresenta. Conversamos sobre a caça e a especulação de que talvez este tenha sido um dos fatores que reduziram a quantidade de animais e espécies na ilha. Todos os moradores entrevistados nos receberam muito bem em suas casas.  Aprendi um pouco sobre a história e cultura de Cananéia, assim como alguns eventos marcantes que ocorreram lá.
 
Em meados de dezembro de 1992, um tubarão branco foi capturado acidentalmente pelos moradores da ilha. Pesando em torno de 2,5 toneladas e medindo aproximadamente 7 metros de comprimento este animal entrou para a história da ilha e também para a história do Brasil como sendo o segundo maior tubarão branco capturado no mundo. Atualmente o mesmo encontra-se no museu da cidade em exposição. Como foi taxidermizado, infelizmente seu tamanho foi reduzido, mas o museu mantém o corpo legítimo do animal.

 

                                Segundo maior tubarão branco do mundo. Foto: Rayssa Barros

Foi no museu de Cananéia que também conheci um pouco mais sobre o passado da cidade. De acordo com a exposição que havia lá, o expedicionário Martim Afonso de Souza encontrou em 1531 um aglomerado de Castelhanos e Portugueses instalados na Ilha do Bom Abrigo e em 1578 o povoado de São João Batista de Cananéia é elevada a categoria de Vila, que mais adiante viria a ser conhecida somente por Cananéia. A cidade também apresenta uma série de sambaquis, aglomerados compostos por conchas, restos de animais, alimentos, objetos e outros artefatos que foram deixados por populações há mais de 5 mil anos.


                                                                   Sambaquis. Foto: Rayssa Barros.

A pesca e o turismo são a principal fonte de renda dos nativos da região. Há também a venda do artesanato regional feito pelos Caiçaras, Indígenas e outros moradores mais antigos. Por falar em indígenas tive a chance de conhecer e conversar com o cacique da única aldeia existente na Ilha. Seu Airton e seus familiares moram na região há quatro anos. Em sua pequena aldeia composta por apenas 23 índios, todos da etnia M’byá Guarani, ele nos falou um pouco sobre os animais que ele e seus familiares costumavam ver há anos atrás e que infelizmente hoje não encontram mais.

O cacique também afirma que a caça foi um fator que influenciou bastante na redução de animais e mesmo o desaparecimento de alguns mamíferos da região. Airton também nos falou da dificuldade que ele e sua família enfrentam diariamente para conseguir alimento e suas dificuldades em se manterem em Cananéia. Atualmente a única fonte de renda de sua família é a venda do artesanato que fazem e que muitas vezes são vendidos até três vezes mais caros pelas casas de artesanato existentes na cidade, no entanto, para os indígenas não há lucro. Airton também nos contou que existem outras aldeias em melhores condições, cujas áreas já foram demarcadas pelo governo federal e que aguarda ansioso a demarcação de sua aldeia, pois só assim acredita que terá  paz com sua família.

 

                               Artesanato Indígena. Fotos: Rayssa Barros



Felizmente, para termos a oportunidade de conhecer o cacique e visitar a aldeia, tivemos que recorrer a alguém muito especial que diariamente trava uma batalha para conseguir melhorias na qualidade de vida dos índios de Cananéia. A pessoa tão especial a quem me refiro é Jane, uma mulher muito batalhadora, amiga e acolhedora que decidiu se dedicar a causa indigenista. Através de Jane conheci também seu marido, a quem chamo carinhosamente de Seu Nelson, uma pessoa também maravilhosa que ajuda os cachorros de rua da cidade, dando-lhes comida e cuidando dos que estão doentes e feridos na frente de sua casa.
 
Jane já trabalha com os indígenas há alguns anos e sente que as pessoas pouco se importam com as necessidades e dificuldades que eles passam constantemente. Ela já recorreu a todas as autoridades locais da cidade solicitando ajuda, mas até o momento ninguém a ajudou. Então como ela mesmo diz: “Aqui só eu que ajudo eles!...”, Jane ajuda como pode, seja doando roupas usadas, seja com alimentação ou divulgando o artesanato dos indígenas para que os mesmos possam lucrar com o trabalho que fazem.



                                              Jane e seu Nelson. Foto: Rayssa Barros.

Durante os oito dias em que estive em Cananéia, fizemos atividades de rastreamento de fauna silvestre com base nas pegadas deixadas pelos animais e percorremos vários locais em diferentes pontos da ilha. A conversa com os moradores também nos ajudou muito nos trabalhos, pois serviam como complemento para as informações que coletamos com o rastreamento, informações históricas da cidade, bem como a cultura do povo de Cananéia. Para nos despedirmos da cidade com estilo, Júlio e eu fomos levados a dar uma volta de barco ao entorno na ilha inteira por Alemão, nosso guia durante toda a nossa estadia em Cananéia. 

O passeio de barco teve a duração aproximada de oito horas para contornarmos a ilha inteira e muitas surpresas. Fiquei emocionada ao ver que em quase todo o nosso trajeto, estávamos acompanhados pelos botos-cinza (Sotalia guianensis), muito comuns na região. Em todos os momentos eles nos alegraram com sua presença, próximos a nossa embarcação, saltando algumas vezes e em outras caçando próximos a praia. Também existiam muitas aves marinhas, como Biguás, Gaivotas, Gaviões, Garças e Papagaios-da-cara-roxa. Ao final de nosso passeio, já no fim do dia, Alemão nos levou para ver o oceano bem de perto, onde contemplamos um pôr-do-sol incrível e inesquecível, assim como esta viagem maravilhosa e tudo o que vi e conheci em Cananéia.

 

                                                  Alemão, Júlio e eu, prontos para embarcar.


                                                Vista de Cananéia. Morro do Cardoso ao fundo.


                                               Pôr-do-sol visto do Oceano Atlântico. Fotos: Rayssa Barros

Quando voltei pra casa, mais uma vez, lágrimas desceram dos meus olhos e ao atravessar a ponte que separa o continente da ilha, vi o sol iluminando a água lá embaixo, e a imagem ficou guardada até hoje em minha mente. Assim como também ficará pra sempre na lembrança as pessoas que lá conheci, como Jane e seu Nelson, Alemão e Cida, Alex, Sônia, o cacique Aírton e sua família e Júlio, que não mediu esforços para me dar a oportunidade de conhecer pessoas tão especiais e um lugar tão bonito.
 
Espero que Deus sempre ilumine o caminho dessas pessoas, assim como o de Silva e sua esposa que me forneceram informações muito valiosas sobre a ilha, e que dê muita força a todos eles, para que consigam alcançar o objetivo de suas lutas particulares, Jane com seus indígenas, seu Nelson com seus cachorros, Cida e Alemão na superação da violenta morte de seu filho, Alex e Júlio no belíssimo trabalho que vem desenvolvendo em favor da natureza.

O que eu mais gosto quando faço essas viagens é conhecer gente assim, que faz as coisas por que gosta e acredita que seu trabalho é algo que realmente vá contribuir nem que seja um pouquinho com este mundão enorme que temos, mas que precisamos ter a consciência de que ele é nosso e pode deixar de existir se não cuidarmos desse grande tesouro deixado por Deus: A natureza e a vida!

É um pouco desta sensibilidade que venho tentando passar através de meus textos. Será que estou conseguindo? Mas independente disto, pretendo continuar, buscando sempre novas vivências e experiências em cenários diferentes, mas com algo em comum: gente hospitaleira e humilde que se importa com o mundo, que ama a vida e que luta pra conseguir melhorias para si e para outros.  Dedicado a Júlio, Alex, Jane, Nelson, Cida e Alemão. Muito obrigada por todo o carinho com que me trataram e pelos momentos inesquecíveis que vivi em Cananéia!
Atenciosamente,


                Rayssa Barros, Guarda-parque, estudante de Biologia da UNIFAP e amante incondicional da vida...

BIBLIOGRAFIA USADA
CANANÉIA, Clube de pesca de. Cananéia, “ilha de vida”. Ano não publicado. Acesso em 10/05/2009. disponível em: http://www.pescacananeia.com.br/ecoturismo.htm
 
 

 

 

 

















                       Figura I.                                                                Figura II.
Figura I. Metrô de São Paulo, um dos melhores do Brasil.
Figura II. Visão de São Paulo da Rodoviária de Barra Funda. Fotos: Rayssa Barros.

Ao chegar à rodoviária, depois de certo tempo esperando, encontrei com meus dois colegas de viagem: Júlio e Alex, ambos biólogos especialistas em zoologia. Depois de certo tempo na estrada, chegamos a Ilha de Cananéia. A cidade histórica, uma das mais antigas do Brasil faz parte do eixo do complexo estuarino-lagunar ou Lagamar do Vale do Ribeira-Serra da Graciosa. Esta região, localizada no litoral sul do Estado de São Paulo, é uma das últimas áreas remanescentes da Mata Atlântica e um dos últimos ecossistemas não poluídos do litoral brasileiro (CANANÉIA, ANO NÃO PUBLICADO), sendo composta por várias ilhas. Toda a região que compõe o Lagamar foi formada a partir de acidentes geográficos ocorridos na região há séculos atrás, sendo que hoje as transformações ainda continuam.











     Figura III. Cananéia o 1º povoado do Brasil. Foto: Rayssa Barros.

Em Cananéia, meu principal objetivo era ajudar Júlio e Alex em um levantamento de informações da fauna de mamíferos existentes na região. Ambos foram contratados para ajudarem nos trabalhos que irão contribuir com o funcionamento da Estação Quarentenária que está sob responsabilidade do Ministério da Agricultura. Tal local será utilizado com a intenção de trabalhar no melhoramento da genética do gado brasileiro, haja vista que somos um dos países campeões em exportação de carne para o mundo. Outras finalidades também serão exploradas neste ambiente, como por exemplo, a vinda de aves exóticas para o Brasil, onde todas serão inspecionadas e ficarão sob os cuidados da Quarentenária que será a primeira do Brasil, segundo um dos coordenadores deste trabalho.





 

Comentarios (3)Add Comment
Pessoas que fazem a diferença no mundo...
escrito por Suely Ribeiro, junho 15, 2009
Gostei muito da matéria sobre Cananéia, acho maravilhoso o trabalho de pessoas
simples e humildes fazerem tanto pelo próximo... ao passo que outras pessoas
que por condição social e monetária poderiam fazer tanto e não fazem.

Nosso Brasil é rico na biodiversidade, rico em culturas e eu fico feliz em po
der conhecer ainda mais através de pessoas como a "Rayssa", foi muito bom e de
sejo de coração que continue amando a vida assim e que Deus abençõe àquelas ou
tras pessoas que ela encontrou pelo caminho...

Beijos no coração

Suely.
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GRATA....
escrito por Rayssa, junho 17, 2009
oi Suely,

fico mto feliz que vc tenha gostado do texto!!! adoro qnd as pessas o lêem e tiram algo de bom para sí....a intenção é esta mesmo!!!!

quero agradecer também imensamente ao meu grande amigo e ídolo Paulo Villas-Bôas que me disponibiliza o espaço em seu site para divulgar minhas idéias e experiências.........OBRIGADA DE VERDADE POR ISSO!!! Já sou uma expedicionária VillasBoana de coração!!!! rsrsrsrs

um enorme beijo!

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Cananéia.
escrito por Arquiteto Eduardo Manoel, setembro 29, 2009
Que bom que mais pessoas estão visitando Cananéia.
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