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Do baú
As relíquias dos herdeiros de personalidades como Tarsila do Amaral e Orlando VILLAS BÔAS
COMO CINCO HERDEIROS ZELAM PELO ACERVO DE SEUS PARENTES ILUSTRES
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guardiões da memória
por Maria Eugênia de Menezes e Rafael Balsemão
O sobrenome não deixa dúvida. Maurício Segall, Eliza Duque Estrada, Amélia Império e Noel Villas Bôas são herdeiros de ilustres personalidades da vida nacional. Carregam no DNA histórias de um pai, de um bisavô ou de um irmão que foram expoentes das artes, das letras e da antropologia.
A quinta personagem desta história é Tarsilinha do Amaral, homônima da tia-avó modernista.
Mesmo com tal ascendência, às vezes tudo parece conspirar contra esses paulistanos obstinados. Nem sempre eles são especialistas nas coleções que herdaram, não raro precisam brigar para conseguir o apoio de entidades ou do governo. Mas costumam ser movidos pelo afeto na árdua e prazerosa tarefa de preservar e divulgar o acervo de seus parentes célebres. A Revista abriu o baú dessas famílias na reportagem a seguir.
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legado do sertanista
O cadeado no portão faz só figuração. Basta empurrar a corrente para entrar na casa, no Alto da Lapa, onde Orlando Villas Bôas (1914-2002) passou as últimas duas décadas de vida.
Ultrapassada a soleira da porta, vislumbra-se uma sala com ares de museu, tamanha é a quantidade de sinais do trabalho do sertanista.
Quadros e fotografias sobem até o teto. "Mas já tiramos muita coisa", diz Noel, 34, filho caçula de Villas Bôas e responsável pela organização do acervo.
Em armários, guarda uma infinidade de documentos e a correspondência que Orlando manteve com personalidades do século 20, como Claude Lévi-Strauss, o rei Leopoldo, da Bélgica, e o marechal Rondon. "Meu pai tinha um ciúme dessas cartas", pontua. "Dizia que o Rondon só escrevia de próprio punho para os filhos e para ele."
Nesse número indefinido de páginas, escondem-se outros itens cobiçados por estudiosos. Em oito alentados volumes, escritos à caneta tinteiro, seus diários de campo trazem relatos originais dos primeiros contatos de brancos com tribos desconhecidas da Amazônia e registros da histórica expedição Brasil Central, que começou em 1943 e desbravou o interior do país.
Só de fotos, o indigenista guardou quase 6.000 imagens. "E cada vez que mexo no acervo vou achando coisas", revela Noel, formado em direito e filosofia.
Cerâmicas, redes, esteiras e flechas ocupam um imenso salão no quintal. Dos artefatos indígenas, porém, a coleção não chega hoje a um décimo do que Orlando e seus irmãos recolheram em expedições, já que ele mesmo doou muita coisa para museus.
Fato é que muito do patrimônio se perdeu e Noel vive hoje um dilema sobre qual destino dar ao legado do pai. Não vê sentido em guardar o acervo em casa e planeja criar um instituto para que tudo esteja aberto a consulta.
Descarta, porém, doar a herança para museus brasileiros. Já recebeu sondagens de instituições estrangeiras. "Se ficar aqui, em dez anos acaba. Acho [tirar o acervo do país] terrível. Mas não é culpa minha. É o próprio país que não se interessa."
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