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Minha Mãe Zilda PDF Imprimir E-mail

ENTRE OS POBRES, A ALEGRIA DE
ZILDA SILVA VILLAS-BÔAS.

Zilda Silva VILLAS-BÔAS, “VILLAS com dois eles e Bôas separado”(....) Tem até um homem da Prefeitura que, quando vai falar de mim, diz: Villas com dos “eles”e Bôas separado(...). Eles falam que eu detesto quando escrevem meu nome errado (...). Eu respondo: “ë claro, não esqueçam do Silva. Ai não pode!”

Nasceu em nove de junho de 1.920, na cidade de Bebedouro, Estado de São Paulo. Me pai Joaquim Ferreira da Silva, era de Ouro Fino. Minha mãe era de Jaboticabal e chamava Rosa Pellegrino da Silva(...) Meus avós por parte de mãe vieram da Itália(...) Meu avô era daqueles italianos bem bravos.

Como grande parte das famílias do começo do século XX, Zilda ainda contava com mais dez irmãos: Zélia, Pedro Benedito, Francisco Jorge,Terezinha de Jesus Maria Anita, João Batista, Maria Clara, Maria Julia, Maria Zélia e Aparecido Carlos. Todos nascidos em Bebedouro, porem, agora cada um esta num caminho diferente (...)

Zilda nasceu após a Primeira Gerra Mundial e, assim como muitos, buscava o crescimento do país. Minha infância foi ótima, freqüentava o grupo escolar lá em Bebedouro (...) Depois, fiz o Ginásio do Estado, seguindo com Magistério (...). Meu pai tinha uma selaria, fazia muitas coisas (...) Minha mãe dona de casa (...). Já o irmão dela o Pedrinho, foi meu diretor. Era maestro, professor de música e diretor do ginásio.
Na infância e na adolescência eu possuía muitos amigos.

Aos 19 anos de idade, uniu-se com João Baptista VILLAS-BÔAS.

Tiveram cinco filhos homens: quatro nascidos em Bebedouro e um em Campinas. Foram o Ruy, José Roberto, João Batista sem “p”, mas o dele não-, o Márcio Sérgio e Paulo Celso (...) Meu marido já tinha morado aqui em São Caetano com 17 anos. Era tipógrafo e trabalhou na Matarazzo (...) Ele contava que via o conde naquele Ford (...) Casei-me em Bebedouro em 1939. Fiquei 54 anos casada com João. Já faz 13 anos que ele faleceu, foi uma pena. (...). Meu único filho nascido em Campinas, o Roberto, foi na época em que meu marido trabalhou por lá (...) Ele foi jogador de futebol na Ponte Preta. Era goleiro (...) O Ademar Oliva Xavier, nosso grande amigo desde o tempo de Bebedouro, é o único que chamava de Zico, apelido de família e futebolístico, conta Zilda.

MELHORA – Naquele tempo eram comuns as pessoas trocarem de cidade, pois buscavam trabalho e melhoria na condição de vida. Viemos para São Caetano porque o Ruy iria fazer 18 anos (...) Bebedouro era muito bom, mas eles precisavam aprender a trabalhar e comprar as coisas, né (...) Como eram cinco filhos homens e já estavam todos se tornando moços, não poderiam ficar mais nas custas do pai. Então decidimos (...) Como o João morado aqui e também tínhamos amigos morando na cidade, pediu transferência do Banco do Brasil e fomos direto a São Caetano do Sul.

Chegando no município, a família foi morar em uma casa em frente ao Hospital Beneficência Portuguesa Logo encontraram os amigos Ademar Oliva Xavier e Nair Gonzáles Xavier. Zilda foi trabalhar na Escola Estadual de Primeiro Grau Dom Benedito. Foram os bancários que arrumaram para gente aquela casa (...). O João foi desligado em Junho (...) O Ademar veio na frente (...)  A primeira pessoa que conheci aqui foi o Senhor Jorge Laranjeira.(dono da loja onde tinha de tudo). A rua ainda não era asfaltada (...) Quando meu marido viu  tudo aqui, logo pensou:
- “Vou comprar duas ou três terras por aqui... Esse lugar vai progredir muito... “Pronto”! Já vai comprar mato, esta família não pensa outra coisa, Como gostam de mato.”.

Chamei a Nair e disse para o Ademar deixa-la trabalhar comigo. Éramos todos de Bebedouro (...) Ainda trabalhei em São Matheus, em Utinga (...) Depois vim para Escola Arthur Rudge Ramos. Lá fiquei por muito tempo, sempre lecionando e atrás de entidades (...).
Meu filho mais velho conta que eu não espero os pobres vir atrás de mim, eu que vou atrás dos pobres.

O tempo foi passando, o casal foi se enturmando e acostumando com a cidade. São Caetano estava em ascensão recebia muitas famílias interessadas em começar vida nova. Sempre freqüentei a sociedade, era assim desde Bebedouro (...)  Eu saí até em carnaval (...) Nós somos em muitos irmãos (...) Na maioria são todos assim.

Zilda logo se aproximou dos clubes de serviços sempre prestando socorro aos necessitados. Nós dez anos patronos do Lions Clube Centro (...) O João me acompanhava (...) Ele dizia para que tomasse parte de tudo, mas para não coloca-lo no meio, que ele iria só acompanhar.

Nesta época, os filhos já estavam encaminhados. Eles estudaram aqui na cidade (...) O Roberto fez faculdade no IMES. O Ruy montou escritório em São Paulo. A gente ficava sabendo de cada coisa (...)  Ele foi muito sapeca e eu ficava perguntando aquém esse menino tinha puxado? Cheguei a conclusão que era a mim mesma. Declara Zilda com um sorriso no rosto (...) Já o João Batista sem “p” fez Engenharia. Construiu algumas obras na cidade, grupos escolares e praças. O Márcio formou-se em Educação Física e por fim o Paulo Celso, este também adora mato e índios, quer fazer uma Expedição pelo Brasil, trabalhando com pessoas carentes também e conscientizando também sobre a natureza, coisa de VILLAS-BÔAS, hoje ele esta com uma fabrica de móveis em Belém, lá no Pará.  Tenho ao todo 11 netos e seis bisnetos (...) o Roberto mora em Fortaleza e o Paulo em Belém. Já fui visita-los, gostei bastante, no entanto a viagem é muito longa (...) eles progrediram muito, tudo isso com bastante esforço e trabalho.

Mostrando algumas fotos, Zilda recorda dos momentos em que ganhava prêmios. Eu fui durante cinco anos primeiro lugar das Cafonas (esse troféu era dado as pessoas que se vestiam mal promovido pelo Lions (...)  Tinha um saco de retratos, minha irmã vinha aqui e dizia: “Zilda, vamos dar um pouco de risada pegue o álbum de fotografias” A gente não acredita que colocava umas roupas daquelas (...) Eu comprei um álbum e fiz um só da família. Outro só da APAMI (Associação de Proteção e Assistência á Maternidade e Infância) um dos cafonas um da escola e um da família do João.

A despeito dos problemas, a família sempre manteve com o trabalho. Nunca passamos muita dificuldade, era só o natural (...) Morei durante cinco anos na frente da Beneficência, depois, mudei para Rua Prudente de Morais, permanecendo durante oito anos (...). Finalmente parei aqui, no Bairro Santa Maria, onde já estou há 30 anos. Nada caiu do céu.

Atualmente com 86 anos, Zilda ,mantem fazendo o que gosta. Fez parte muitas entidades, ajudando as pessoas carentes e necessitadas. Quando vê alguma desigualdade, não se contenta. Ontem mesmo escrevi para o Jornal Agora (...) Tinha uma reportagem de uma artista, que tinha comprado 53 pares de tênis (...) Ela argumentava que, como estava grávida, não poderia usar sapatos (...) Com tanta gente passando fome, ela não precisa menosprezar os outros (...) Podia ajudar  outras pessoas (...) Essa não foi a primeira vez que eu fiz isso. Se a coisa estiver ruim, eu tomo parte. Só estou esperando sair no jornal (...) A desigualdade esta muito grande. Eu não sou fã da Rede Globo, acho que ela muito egoísta (...)  Não posso ver dificuldades (...) Tenho que ajudar (...). Repartir é fácil. Ajudar os pobres é tão bacana, comenta Zilda.  

Trabalha a mais de 40 anos como secretária da APAMI e do Ropeiro de Santa Rita (organização que arrecada roupas para os necessitados). Também faz parte da Rede Feminina de Combate ao Câncer há 30 anos. Na última quinta feira reunimos (professoras aposentadas). Escolhemos um local e fazemos uma filantropia (...) Este mês ainda não sei aonde irá se realizar.

Como professora, alfabetizou muitas pessoas ao longo da vida. Segundo ela, o professor é o começo de tudo. Faz muito tempo que os professores não ganham aumento de salário. Esta ocorrendo uma invasão de valores (...) Respeito todas as profissões, mas tem muito artista ganhando fortunas (...) Hoje você quase não acha um programa na televisão que não tenha mulheres peladas (...) No meu conceito, a mulherada perdeu o pudor (...) Se jogam sobre esses cantores, depois  acontecem as brigas de separação filhos e outras coisas.
Indagada sobre a possibilidade de já ter pensado em sair do município. Zilda relembra uma conversa com o marido.
- “Você só não deixa esta cidade por causa das suas amizades!.”
- “Não gostaria de morar num sítio, á noite, tudo escuro, não tem nada”.
- “Você não tem sensibilidade (...). Não sabe ouvir um sapo, um passarinho cantar, não presta atenção no trabalho da aranha, só quer saber de luz, povo, gente“, completou o marido VILLAS-BÔAS.

Gosto da turma de São Caetano, sou muito conhecida aqui (...) Até fui homenageada Mulher de Ação (...) Foram cinco mulheres (...) Eu, uma de Santo André, outra de São Bernardo, uma de Mauá e também uma médica.

Em meio às entidades, explica a todos o quanto é importante socorrer as pessoas. Outro dia eu consegui, com a presidente dos Roupeiros, 12 toalhas, 12 lençóis, 12 fronhas (...)  Quando bate pedindo comida, tem que dar (...). Dou para quem não tem (...) Sou igual o Santo Antonio: Eu peço para dar  (...). Uma vez veio um homem pedir comida. Dei a ele um prato de comida e também três bananas (...).
Depois de comer, ele virou e disse: “A família aí não toma refrigerante não?” Eu achei o máximo.

Zilda Silva VILLAS-BÔAS, ainda trabalhou com Carmem Prudente, responsável pelo Hospital do Câncer. Sempre promoveram festas beneficentes para angariarem fundos e, assim, nunca deixar de ajudar os necessitados.

Com a vida repleta de histórias, sempre teve muitos conhecidos, e amigos. Uma vez conversei com professor de Latim já falecido (...) Nos encontramos na Estação da Luz perguntei:
- “Quantos anos o senhor tem?”.
- “Cinqüenta e oito anos bem sofridos e mal vividos.”.

Entre viagens e serviços, Zilda visitou 18 Estados brasileiros fazendo Simpósio do Câncer. Passou também pela Itália, por Jerusalém, pelo Egito, pela França, Espanha, Alemanha e Portugal. Quando pode passa um tempo em Bebedouro, e perguntei para minha irmã Anita.
- “Nossa, quem é aquele moço?”.
- “’E filho de fulano.”
- “Ué, mas ela já tem filho crescido?”
- “Você tem filho velho e não quer que ela tenha filho moço?”.

O tempo esta passando muito rápido (...)
Tomava parte nos bailinhos (...)
Uma vez, quando saiu uma propaganda de um cemitério, disse ao João para ele comprar um túmulo aqui em São Caetano.

- “Por que”? Estranhou o marido.
-  “Ah não! Um defunto tão pesado vai para Bebedouro? Quem vai receber? Aquelas amigas da escola?
Lembra da Zilda? O marido dela era jogador de futebol” A saudade que tenho de lá é de encontrar a turma e reviver aqueles tempos (..) A última vez em que estive lá foi no ano passado.

PARABÉNS – No meu aniversário de 80 anos, meu filho Ruy aprontou uma comigo (...) Cheguei em casa e estavam o Roberto, de Fortaleza, e o Paulo, de Belém do Pará, meu filho Márcio Sérgio e o João Batista aqui na sala (...) Eles me convidaram para almoçar fora (...) Fomos até uma churrascaria e, para minha surpresa reencontrei meus parentes de Rio Claro, Bebedouro, Araraquara e de São Paulo (...) Estavam lá também 80 professores (...) Foi uma comemoração inesquecível  (...) Quando pequena, eu apanhava muito (...)  Depois que ele fez isso, já sei quem ele puxou.

Zilda Silva VILLAS-BÔAS, guarda muitas lembranças e fotos. Também preserva algumas bonecas, artigos de viagens, presentes e muitas recordações. Passa o tempo como gosta, ajudando os outros e isso a torna contente. É assim a vida, cheia de altos e baixos, contudo mais altos do que baixos.